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Unicap recebe linguista americano que desafia Chomsky

Publicado Por: Daniel França

Uma tribo de aproximadamente 350 pessoas que habita o Rio Maici, na divisa entre os estados do Amazonas e Rondônia, pode ser o laboratório de uma revolução sobre como o ser humano compreende o fenômeno da Linguagem. A famosa e mais aceita tese da Gramática Universal, elaborada pelo filósofo e linguista americano Noam Chomsky, de que a linguagem é uma capacidade inata ao ser humano que surgiu entre 70 mil e 100 mil anos atrás a partir da evolução genética do Homo Sapiens, está sendo colocada em xeque.

 

O autor do questionamento que vem dividindo os cientistas da linguagem é o também americano Daniel Everett. Hoje pesquisador da Bentley University, em Massachusetts, a relação dele com o povo Pirahã começou em 1977 quando o então missionário cristão Daniel Everett chegou na tribo para catequizá-los. Foram pelo menos oito anos morando na aldeia junto com a mulher e os filhos. Entre partidas e chegadas se passaram 40 anos. Everett aprendeu a língua dos Pirahã e afirma ter feito descobertas surpreendentes que o fizeram formular uma teoria oposta à de Chomsky.

 

De acordo com os estudos de Everett, a Linguagem teria sido inventada pelo Homo Erectus há pelo menos dois milhões de anos a partir do desenvolvimento de conversas. Ou seja, é algo muito mais antigo do que se pensava e está moldada à cultura daquela sociedade na qual a linguagem está contextualizada. Essa conclusão veio a partir de constatações de que o idioma Pirahã não tem tempos verbais (presente passado e futuro), nome de cores e nem palavras para números.

 

Outro ponto de embate entre Everett e Chomsky é a falta de recursividade do idioma desse povo originário, que é a característica de articular orações subordinadas. A tese de Chomsky defende essa propriedade como sendo comum a todas as línguas. Falando e escrevendo fluentemente em português, Daniel Everett é autor do livro Linguagem: a história da maior invenção da humanidade. A obra é uma publicação da Editora Contexto.

 

O linguista americano que se tornou ateu depois da experiência com os Pirahãs vai ser um dos palestrantes do colóquio Linguagem, Sentido e Ação na Obra de Daniel Everett. O evento promovido pelo Programa de Pós-graduação em Filosofia da Unicap (PPGFil) será realizado nesta quinta (9) e sexta (10), a partir das 16h, com transmissão pelo Youtube da Universidade. A mediação será do diretor da Escola de Educação e Humanidades, Prof. Dr. Danilo Vaz Curado; do coordenador do PPGFil, Prof. Dr. Gerson Arruda; do coordenador do curso de Filosofia, Prof. Dr. Pe. José Marcos; e da Profª. Drª Eleonoura Enoque. A programação completa está disponível ao final desse conteúdo.

 

Entrevista // Daniel Everett

 

O jornalista da Unicap e mestre em Ciências da Linguagem pela Universidade, Daniel França, conversou por e-mail com Everett sobre alguns aspectos que ele irá abordar no colóquio. Confira abaixo.

 

Pergunta – Qual foi o contexto da sua ida, como missionário, à aldeia Pirahã? Como o senhor tomou conhecimento desse povo e como havia sido planejado essa catequese?

Resposta - Entrei como membro do Summer Institute of Linguistics/Wycliffe Bible Translators. Era um crente novo, mas dedicado. Planejava traduzir a bíblia na língua Pirahã e a partir da tradução converter muitos e estabelecer uma igreja.

 

Pergunta - De missionário cristão, o senhor afirma ter se tornado ateu. Que aspectos da cultura Pirahã influenciaram nessa sua transformação pessoal?

 

Resposta - Eles exigem evidência para apoiar afirmações. Eu não tinha a evidência sobre Deus - nunca vi, nunca ouvi, não conhecia ninguém que tivesse visto. Também são contentes com a vida e confiantes que possam enfrentar qualquer desafio. Não são violentos. Tem muito amor. Tudo que queria levar do evangelho já tinham e não precisavam de algo supernatural para ter.

Pergunta - As sociedades ocidentais vivem uma epidemia informacional com ressignificações e polarizações na produção de sentido a todo instante, o que provoca uma revisão na nossa relação com o passado (ocasionando por vezes depressão), e com o futuro (gerando quadros de ansiedade). Quais lições esse povo encravado no Sul amazônico pode nos passar sobre felicidade?

 

Resposta - Aproveitar cada dia, sem medo do futuro e sem se preocupar com o sentido de culpa da qual não pode mudar.

Pergunta - Um dos pontos de embate da sua tese com a de Chomsky é a questão da recursividade. O senhor poderia explicar como a linguagem Pirahã consegue se fazer entender sem essa propriedade?

 

Resposta - Não é problema. A força criativa da linguagem se encontra não nas orações (contra Chomsky – *Nota do editor: aqui Everett se coloca no sentido acadêmico), mas no discurso - nas histórias que contamos. Eles têm recursividade cognitiva e organizam as suas histórias de forma recursiva. Simplesmente não utilizam essa propriedade nas orações/sentenças. Mas Chomsky nunca prestou atenção a histórias e discursos. Para ele a linguagem nada mais é do que um conjunto de sentenças. E essa posição não dá conta a língua Pirahã. Eles são tão inteligentes quanto qualquer outra sociedade. Simplesmente preferem ter orações simples e jogar a complexidade para as histórias. Mas não tem como encaixar isso em nenhuma versão da teoria Chomskyana.
 

Pergunta - Quais as possíveis ligações entre a linguagem Pirahã e a aquela à qual o senhor defende como sendo inventada pelo Homo Erectus, há dois milhões de anos?

 

Resposta - Os Pirahãs mostram que podem ter uma gramática capaz de expressar qualquer pensamento só organizando símbolos numa ordem linear. Exatamente como proponho como uma possível gramática dos erectus. Não tem nada a ver com inteligência. É simplesmente uma gramática alternativa. 

 

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