Pronunciamento do Reitor na 14ª Semana da Consciência Negra - Unicap

Título Notícias

null Pronunciamento do Reitor na 14ª Semana da Consciência Negra

Publicado Por: Redação

Semana da Consciência Negra da Unicap - 2021

Recife, 1-5 de novembro

Pronunciamento do Reitor

Gostaria de saudar todas as pessoas que participam desta Semana da Consciência Negra da Unicap, em nome da Profa. Dra. Valdenice José Raimundo, nossa pró-reitora de Pesquisa, Pós-graduação e Inovação e em nome do companheiro de missão jesuíta, Padre Clóvis Cabral, que receberá, no próximo 20 de novembro, o título de Doutor Honoris causa, precisamente pela vida totalmente consagrada à causa do povo negro. Cumprimento igualmente o nosso palestrante de hoje, Ms. Jefferson Amorim, companheiro jesuíta, ex-funcionário do Instituto Humanitas da Unicap.

A Semana da Consciência Negra, em sua 14ª edição, já é um acontecimento relevante no calendário da Unicap, desde o ano de 2008. Aquela 1ª realização foi um marco histórico que desencadeou uma série de estudos, eventos, parcerias e ações afirmativas, tematizando as questões étnico-raciais no ambiente de nossa comunidade universitária, notadamente com a criação do NEABI, Núcleo de Estudos Afro-brasileiros e Indígenas. Partindo da compreensão da abolição como uma tarefa inconclusa, surge a necessidade de desconstruir, por um lado, o mito da democracia racial brasileira, e, por outro, assumir o combate, teórico e prático, do racismo institucional entranhado em nossa sociedade, em todas as instituições e em cada um de nós.

Essa questão do racismo institucional foi e é pautada por uma gama de escritores/as negros/as a exemplo de Lélia Gonzalez, Abdias do Nascimento, Sueli Carneiro, e, evidentemente, por Sílvio Almeida, de quem resgato a seguinte afirmação programática:

“Consciente de que o racismo é parte da estrutura social e,

por isso, não necessita de intenção para se manifestar;

por mais que calar-se diante do racismo

não faça do indivíduo moral e/ou juridicamente culpado ou responsável,

certamente o silêncio o torna ética e politicamente responsável

pela manutenção do racismo.

A mudança da sociedade não se faz apenas com denúncias

ou com o repúdio moral do racismo:

depende, antes de tudo,

da tomada de posturas e

da adoção de práticas antirracistas

(Ibid., Racismo estrutural. SP: Polén, 2019, p. 52).

Isso significa, concretamente que, como comunidade universitária, precisamos tomar consciência que o racismo não depende da intenção dos sujeitos, mas ele se expressa em palavras, gestos e atos objetivamente passíveis de denúncia e carecem de reeducação de nossas relações. Trata-se, portanto, de assumir a responsabilidade ética e política de combater o racismo estrutural, com tomadas de posições corajosas e adoção de práticas antirracistas bem concretas.

Mais que um desafio, trata-se de uma dupla oportunidade para a Unicap. Primeiramente essa grande causa nos oferece a oportunidade de realizarmos a tríplice missão de uma verdadeira universidade brasileira, isto é, ensino, pesquisa e extensão:

- Trata-se de promover um ensino cada vez mais inclusivo (cotas nas IES públicas estatais e bolsas nas nossas instituições comunitárias, mas gerar outras oportunidades);

- Ao mesmo tempo, precisamos desenvolver pesquisas cada vez mais pertinentes no estudo de problemas reais e com a busca de soluções [bom saber que vários de nossos PPGs estudam questões relacionadas ao povo negro];

- E, enfim, desafiados pela curricularização da extensão, temos a oportunidade de criar novos projetos capazes de responder aos grandes apelos da comunidade, nesse caso específico, da comunidade negra, promovendo um real desenvolvimento humano e social e uma formação realmente integral de nossos estudantes.

E, por sua vez, os posicionamentos, as políticas afirmativas e as práticas antirracistas corroboram fortemente para a realização da vocação própria de nossa universidade, em sua natureza comunitária, inclusiva e humanista. Dito de outra forma: se ficarmos em silêncio e/ou não adotarmos práticas antirracistas, não teremos como construir uma verdadeira comunidade universitária nem propor um humanismo credível nem cumprir a nossa missão de educação integral, transformadora das pessoas para que elas possam transformar a sociedade.

Agradecendo, desde já, aos organizadores/organizadoras e aos demais participantes de mais uma Semana da Consciência Negra, gostaria de declarar que o Ano Unicap que marcou o cinquentenário do 20 de novembro como dia da Consciência Negra no Brasil não pode terminar aqui. Trata-se, com efeito, de considerar este ano da Consciência Negra da Unicap como um novo ponto de partida e, sobretudo como uma agenda inconclusa a ser abraçada por toda a comunidade acadêmica, concretizando-se em cada Escola, em cada curso, em cada unidade de serviço, em cada membro desta comunidade.

É verdade que realizamos algumas iniciativas ao longo deste último ano emblemático, mas precisaremos continuar multiplicando ações afirmativas, na linha de um pacto comunitário contra o racismo. O NEABI, em diálogo com o movimento negro e com os coletivos, está trabalhando um planejamento estratégico de combate ao racismo institucional e promoção da igualdade racial. A título de provocação, nesse ato de abertura, gostaria de partilhar algumas questões e questionamentos que me inquietam.

1) Apesar de termos avançado, nesses últimos anos, na oferta de bolsas de inclusão racial, baseadas nas políticas de inclusão social, tanto na graduação como na pós-graduação, a demanda e a necessidade cresceram com a pandemia. De que maneira poderemos ampliar o acesso e apoiar a permanência de estudantes negros e negras em nossa universidade?

2) Constata-se que a grande maioria de professores e administrativos das universidades, inclusive da nossa, ainda revela o rosto da desigualdade racial do Brasil. Como poderemos promover e avançar na perspectiva de uma maior equidade de raça, negra e indígena, com políticas afirmativas de novas contratações e escolhas das chefias?

3) Uma das facetas do epistemicídio negro está refletida na produção acadêmica, mas também em nossas escolhas bibliográficas. Como conhecer melhor, ler mais, indicar e debater com autores negros e temas relacionados em nossos diversos cursos e pesquisas? Como promover a “troca de saberes”, como tão bem faz o nosso Instituto Humanitas, entre academia e comunidades tradicionais, organizações sociais e movimentos?

4) Enfim, como ajudar a nossa comunidade universitária a tomar consciência do racismo presente em nossas estruturas em vista de assumir posicionamentos e exercitar práticas antirracistas em todos os lugares e ambientes que estivermos? O Recife das rebeliões libertárias é capital de um estado escravocrata: como fazer desta cidade o nosso campus de atuação e de estudo, apoiando o protagonismo do povo negro no combate ao racismo?

Evidentemente que essas questões não terminam aqui nem podem encontrar respostas simples e imediatas, mas elas nos permitem entrever o difícil e insubstituível papel da educação no combate ao racismo.

Tarefa difícil, inclusive, porque, como sabemos, infelizmente, o racismo está enraizado nos processos de aprendizagem e nas instituições educativas, do ensino básico à educação superior, manifestando-se de formas diversas e multiplicando seus efeitos nocivos, desde as crianças que fazem ou são vítimas de brincadeiras racistas aos conteúdos escolares oficiais, envolvendo os funcionários mais simples e os educadores mais qualificados.

Por sua vez, como se trata de um problema histórico, estrutural e sistêmico, o papel das universidades é insubstituível por sua vocação necessariamente crítica, capaz de provocar a crise no sistema de privilégios, a releitura crítica da história (cf. Brasil, uma biografia, por exemplo) e a projeção de novas estruturas sociais, segundo a utopia de outro mundo possível. A pandemia do novo coronavírus, aqui no Brasil, agravou muito a situação do racismo, da segregação e da violência contra o povo negro. Como diz Boaventura de Sousa Santos, a cruel pedagogia do vírus desmascarou as mazelas de nossa sociedade; mas, igualmente, revelou oportunidades de tomar decisões sobre o nosso futuro comum (cf. Boaventura de Sousa Santos. O futuro começa agora: da pandemia à utopia. SP: ed. Boitempo, 2021). Basta de racismo, recordando as palavras de Dom Helder Camara, na missa dos Quilombos, há 40 anos aqui no Recife: “Mariama, Mãe dos homens de todas as raças, de todas as cores, de todos os cantos da Terra. [...] Basta de escravos [escravizados]. Um mundo sem senhor e sem escravos. Um mundo de irmãos [e irmãs].”

Ousemos, pois, sonhar com uma “fraternidade universal” ou uma amizade social, como diz o Papa Francisco (Cf. Fratelli tutti). Que sejamos capazes de “esperar contra toda esperança”, como dizia o apóstolo Paulo. Sabendo que isso supõe uma pedagogia, como diria “outro Paulo”, o nosso centenário Paulo Freire, uma pedagogia que denuncia a opressão a partir da libertação do oprimido (cf. Pedagogia do Oprimido), uma pedagogia capaz de indignar-se contra o racismo (cf. Pedagogia da indignação) mas também uma pedagogia capaz de reaprender a esperança não como utopia distante, mas como verbo e ação, portanto capaz de esperançar (cf. Pedagogia da esperança).

Parabenizo à organização, enfim, pelo tema: estou convicto que relacionar democracia e racismo não é somente atual, mas fundamental. Norberto Bobbio (cf., por exemplo, Estado, governo, sociedade. Para uma teoria geral da política; O futuro da democracia, etc.) postulava que o estado democrático não se consolidaria enquanto as diversas instituições da sociedade não fossem igualmente democráticas. De modo análogo, penso que, se não erradicarmos o racismo institucionalizado, não avançaremos na construção de um verdadeiro estado democrático de direito, nem poderemos garantir uma sociedade realmente democrática.

Mais que nunca, olhando para o Brasil de 2021, fica claro que se não avançarmos no combate ao racismo e se não adotarmos práticas antirracistas em todos os níveis, não alcançaremos a consolidação democrática de nosso país ou, pior ainda, nossa democracia estará sempre inconclusa ou sob novas ameaças de retrocesso. Evidentemente que o problema do racismo está relacionado com tantos outros, mas, enquanto problema estrutural, ele está nos fundamentos da formação e construção da nossa sociedade brasileira. Como intitula Jessé Souza seu último livro, Como o racismo criou o Brasil (Ibid., RJ, 2021). Isso significa que nossa tarefa será não somente de uma desconstrução social, mas de uma verdadeira recriação.

Que essa Semana da Consciência Negra possa contribuir tanto na desconstrução da desigualdade racial, quanto na criação de uma nova humanidade, enfim libertada do racismo e de toda forma de escravização. Assim seja!

Pedro Rubens, reitor da Unicap

Recife, 1º de novembro de 2021

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EDIÇÃO:
Paula Losada (1.652 DRT/PE)
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PRODUÇÃO DE VÍDEO:
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REPÓRTER CINEMATOGRÁFICO:
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DESIGNER:
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WEB DESIGNER E REDES SOCIAIS:
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Elano Lorenzato (2.781 DRT/PE)

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REDAÇÃO E FOTOGRAFIA:
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Júlia Farias,
Luíz Antonio Cardoso.
(estagiários)

CONTATO:
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Boa Vista, Recife-PE.
Cep: 50050-900.
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