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A Perna Cabeluda, o cinema e a memória da ditadura
A recente aparição da lendária Perna Cabeluda no filme O Agente Secreto, dirigido por Kleber Mendonça Filho, reacendeu um debate importante sobre memória, repressão e imaginário popular no Recife durante a ditadura militar brasileira.
O tema foi discutido em entrevista concedida ao jornalista Vitor Tavares, em 20 de janeiro, quando o advogado, cientista político e pesquisador Manoel Moraes analisou como a famosa lenda urbana se conecta diretamente com o contexto político e social do Brasil nos anos 1970.
Segundo Moraes, compreender o surgimento e a circulação de narrativas como a da Perna Cabeluda exige olhar para o ambiente de repressão que marcou a cidade naquele período.
Uma cidade sob vigilância
Durante a ditadura, o Recife ocupava uma posição estratégica dentro do aparato repressivo do regime. A cidade abrigava o Quarto Exército, que funcionava como centro de operações militares e de detenção de presos políticos provenientes de vários estados do Nordeste.
De acordo com Manoel Moraes, muitas vezes a história da repressão no Nordeste é pouco discutida no debate nacional sobre a ditadura.
“Quando se fala em ditadura no Brasil, pouco se comenta sobre a repressão longe do eixo Rio–São Paulo. Muitas vezes a gente aqui fica em segundo plano nessa discussão.”
O pesquisador chama atenção para um dado pouco lembrado: proporcionalmente, Pernambuco registrou mais mortes cometidas oficialmente pelo regime do que estados do Sudeste.
Essa invisibilização da violência política no Nordeste, segundo ele, contribui para um apagamento histórico que ainda precisa ser enfrentado.
Estruturas de poder e violência
Na entrevista, Moraes também explica que a repressão em Pernambuco não começou apenas com o golpe de 1964. Ela já vinha sendo estruturada desde períodos anteriores, especialmente através da atuação do Departamento de Ordem Política e Social (DOPS).
Segundo ele, o órgão se consolidou como um espaço de poder profundamente conectado às estruturas políticas locais.
“No Recife, os delegados do DOPS se tornaram verdadeiros precursores da política pernambucana.”
De acordo com Moraes, esses agentes construíram redes de influência que atravessaram gerações.
“Eles se tornaram donos de cartórios, os filhos foram para a política ou para a magistratura. Montaram uma verdadeira estrutura que, quando o golpe se instalou em 1964, esses grupos vão se fortalecer.”
Essa relação entre segurança pública, poder político e violência institucional também aparece no filme de Kleber Mendonça Filho.
“O filme mostra de forma brilhante como essa estrutura de segurança pública local já era repressiva, engendrada no malfeito, no crime organizado, com conexões com pistoleiros.”
A lenda como linguagem de resistência
É nesse ambiente de repressão que surge a lenda da Perna Cabeluda, cuja primeira aparição registrada ocorreu em 10 de dezembro de 1975, em uma reportagem do jornal Diário de Pernambuco.
Inicialmente descrita como uma “perna fantasma”, a figura passou a ser associada a histórias de sustos, rasteiras e aparições misteriosas que assustavam moradores da Região Metropolitana do Recife.
No entanto, a lenda não deve ser entendida apenas como uma curiosidade folclórica. Na avaliação de pesquisadores e jornalistas da época, narrativas fantásticas também funcionavam como uma forma indireta de lidar com temas que não podiam ser abordados abertamente devido à censura.
O filme O Agente Secreto resgata esse universo simbólico ao apresentar a Perna Cabeluda surgindo em notícias de jornal e em relatos que circulam pela cidade, revelando como o imaginário popular também refletia as tensões sociais e morais da época.
Memória, cinema e história
Ao trazer a lenda para o cinema contemporâneo, Kleber Mendonça Filho recupera não apenas uma história curiosa do imaginário recifense, mas também um período marcado por medo, censura e violência institucional.
A análise do professor Manoel Moraes ajuda a compreender que, por trás da aparência absurda ou fantástica de certas narrativas urbanas, existe frequentemente um retrato profundo das tensões históricas de uma sociedade.
No caso do Recife dos anos 1970, a Perna Cabeluda pode ser vista como parte de um contexto maior: uma cidade marcada pela repressão política, pela censura e por formas criativas de expressão que surgiam, muitas vezes, para dizer aquilo que não podia ser dito diretamente.
Este texto foi elaborado a partir de entrevista concedida pelo professor Manoel Moraes ao jornalista Vitor Tavares, publicada no portal G1 em 20 de janeiro de 2026, na reportagem sobre a presença da lenda da Perna Cabeluda no filme O Agente Secreto.
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