Título Notícias Humanitas

Rio São Francisco não tem plano "B"

Publicado Por: José Maria

Muito se fala do Rio São Francisco e de sua inegável importância. Mas pouco se comenta sobre os enormes desafios e principalmente sobre as grandes ameaças que pairam como uma “espada de Dâmocles” sobre o destino desse gigante que simboliza como nenhum outro a integração do território nacional.

Inserido em partes expressivas de 5 estados e do Distrito Federal, o Velho Chico e seus afluentes representam quase que solitariamente a única alternativa de disponibilidade hídrica para três importantes e peculiares recortes do Brasil: o Norte de Minas Gerais, o enorme semiárido brasileiro e a região Nordeste do nosso país.

Por isso mesmo costumo dizer que esse incomum rio brasileiro não tem plano “B” uma vez observado no contexto estratégico dos 8% do território nacional ocupado por sua bacia hidrográfica, dos mais de 14 milhões de brasileiros e brasileiras que nela vivem, do peso inegável da economia que dele depende e da biodiversidade que representa. Na hipótese de grave acidente comprometedor da qualidade e quantidade de suas águas não haverá como substitui-lo em seu papel estratégico. Ferir de morte o rio São Francisco é, portanto, quase que como enfiar um longo e afiado punhal no coração do Brasil. E isso não é figura de retórica. 

O curioso é que apesar dessa evidência, pouco se faz para prevenir as possibilidades de que catástrofes aconteçam, o que ficou evidente, só para citar um exemplo recente, quando do rompimento da barragem de rejeitos da empresa Vale em Brumadinho, Minas Gerais, crime ambiental de grandes proporções que atingiu o Paraopeba, um dos grandes rios afluentes do rio São Francisco, e por pouco não se estendeu à calha central deste último.

Outras fontes potenciais de ameaças semelhantes persistem, seja na forma de inúmeras barragens de rejeitos de minério mal concebidas e construídas, seja na forma de novos barramentos pretendidos para o seu leito e que podem acentuar a crise que já atinge a biodiversidade aquática declinante, seja na forma de desmatamento insano dos biomas essenciais para a garantia das vazões franciscanas, como é o caso, principalmente, do bioma do Cerrado.

Todavia a maior ameaça potencial ao rio que não tem plano “B” é, sem dúvida, a ideia tresloucada de construção de uma central nuclear às margens e com uso das águas do rio São Francisco na região que, em caso de acidente nuclear, apresentar-se-iam as maiores vulnerabilidades  imagináveis em termos de enfrentamento de situação emergencial diante da qual o Brasil e, principalmente o Nordeste, não teriam cacife nenhum para contornar, a começar pelo viés do abastecimento de água a partir da única grande fonte desse abastecimento que seria precisamente o próprio rio São Francisco.

O mais aviltante na insistência através da qual o poder econômico promove o projeto dessa central nuclear é o fato de que a Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco e a enorme população que nela habita possuem, em termos de energia hidráulica, solar e eólica, um cabedal de fontes incomparavelmente mais baratas, menos perigosas e menos degradantes que dispensam completamente aventuras tecnológicas e econômicas dessa natureza. Lutar contra essa central nuclear é, portanto, afastar de vez o principal pesadelo que ronda a continuidade e vitalidade desse rio tão emblemático, mas tão maltratado desde o dia em que os colonizadores portugueses pisaram no solo brasileiro.

Por: Anivaldo de Miranda Pinto

Jornalista, ex-presidente e atual integrante da Diretoria Colegiada do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, além de Coordenador da Câmara Consultiva do Baixo São Francisco.

Visualizações:
1361
Compartilhar:

Título Notícias Humanitas

Publicador de Conteúdos e Mídias

6x1.png

Agora a pressão é sobre o senado pelo fim da escala 6x1

Apoiado por mais de 70% dos brasileiros, segundo pesquisas realizadas por vários institutos de opinião, o fim da escala 6x1 (seis dias de trabalho, e um de...

Apoiado por mais de 70% dos brasileiros, segundo pesquisas realizadas por vários institutos de opinião, o fim da...

mme.png

Lambança do MME no Leilão de Reserva de Capacidade (LRCap)

"Só a participação cidadã é capaz de mudar um país"  Herbert de Souza/Betinho (sociólogo e ativista dos direitos humanos) O Ministério de Minas e...

"Só a participação cidadã é capaz de mudar um país"  Herbert de Souza/Betinho (sociólogo e ativista dos direitos...

WhatsApp Image 2026-06-01 at 14.29.34.jpeg

PPGFIL / PPGPSI - Jornada Heidegger

Cartaz do Evento com a programação

Cartaz do Evento com a programação

evangelho_revolucao.jpg

Filmes para contemplação e ação - Evangelho da revolução

A Universidade Católica de Pernambuco convida para a exibição especial do filme: O Evangelho da revolução. Dir. François-Xavier Drouet (França e Brasil,...

A Universidade Católica de Pernambuco convida para a exibição especial do filme: O Evangelho da revolução. Dir....