Campanhas eleitorais viraram “monólogos” nas redes sociais, aponta estudo internacional com dados de 15 países e participação da Unicap - Unicap

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Campanhas eleitorais viraram “monólogos” nas redes sociais, aponta estudo internacional com dados de 15 países e participação da Unicap

Publicado Por: Redação

Com informações do pesquisador Bruno Rafael Gueiros

Um estudo internacional elaborado por equipes de pesquisa de 14 universidades ibero-americanas analisou a comunicação de candidatos presidenciais nas redes sociais e identificou uma mudança estrutural nas campanhas eleitorais digitais. A pesquisa examinou 32.416 publicações feitas durante períodos eleitorais em 15 países nas plataformas X, TikTok, Instagram e Facebook, com o objetivo de compreender como se constrói hoje o discurso político nas campanhas online.

Os resultados confirmam a consolidação do que os pesquisadores denominam “imperativo narrativo”. Do total de conteúdos analisados, 73,69% são narrativos, o que indica que as campanhas deixaram de se organizar em torno da disputa entre projetos de país ou programas eleitorais e passaram a operar como batalhas de histórias personalizadas. Nesse cenário, a figura do candidato assume centralidade, enquanto temas de políticas públicas são empurrados para segundo plano. Educação, saúde e segurança, somadas, não chegam a 10% das publicações analisadas.

O estudo também aponta uma dinâmica marcadamente unidirecional. Embora as campanhas utilizem plataformas desenhadas para a interação em rede, o padrão predominante ainda é o da comunicação radial: o candidato fala, a cidadania escuta. Apenas uma em cada dez postagens gera interação significativa, o que indica a permanência de um modelo de teledemocracia mesmo em ambientes digitais.

Outro achado relevante diz respeito ao comportamento dos usuários. Há uma preferência clara por conteúdos de autonarração dos líderes políticos em detrimento de mensagens que dialoguem diretamente com questões públicas. O storytelling personalizado gera mais engajamento do que o storytelling de representação, fenômeno que pode ser associado tanto à fadiga política quanto ao crescente distanciamento em relação aos assuntos públicos.

A repetição dos mesmos cenários físicos e digitais, combinada ao filtrado algorítmico e à intensificação da partidarização midiática, produz o que o estudo chama de “socialidade restrita”. Esse processo reduz os espaços de contato com perspectivas divergentes e fortalece crenças de segunda ordem — aquilo que se imagina que o outro pensa — em detrimento das crenças de primeira ordem, baseadas no que o outro efetivamente expressa.

Por fim, a pesquisa identifica uma aceleração do ritmo comunicativo nas campanhas. O uso intensivo de vídeos curtos, reels e fotografias reflete a percepção de que a paciência social é limitada. Como consequência, as campanhas passam a priorizar reações rápidas em lugar da reflexão, transformando a comunicação política em conteúdos sintéticos de consumo imediato. O uso de memes, apesar de recorrente no debate público, representa apenas 0,48% do total analisado.

A pesquisa foi feita no âmbito de edital universitário e a divulgação dessa etapa ficou a cargo do Laboratorio Digital de Narrativas Políticas da Universidad Camilo José Cela (Espanha). Desde o início do projeto, em março de 2024, os pesquisadores desenvolveram diversas linhas de análise e preparam atualmente um livro que reunirá os principais resultados e avanços alcançados no período.

"Trabalhar em rede com pesquisadores de diferentes países ajuda a ampliar o nosso olhar sobre o fenômeno. E essa abordagem comparativa permite identificar padrões recorrentes e compreender que muitas dinâmicas observadas no Brasil fazem parte de tendências mais amplas", pontua Bruno Rafael Gueiros, coordenador da pesquisa no Brasil.

Doutorando em Ciências da Linguagem pela Universidade Católica de Pernambuco, o pesquisador investiga o discurso político nas redes sociais, com foco nas dinâmicas narrativas, nos processos de personalização da comunicação e nos impactos da pós-verdade sobre o debate público.

"Os dados mostram que as principais lideranças políticas, apesar de trajetória, discursos e estilos diferentes, operam sob uma mesma lógica do imperativo narrativo: a figura do candidato e as histórias personalizadas tomam o lugar do debate programático. Isso ajuda a entender por que a disputa nas redes se organiza menos em torno de políticas públicas e mais em torno de performances sobre identidade. É importante notar que esse não é um fenômeno isolado do Brasil, é um padrão compartilhado no conjunto dos países ibero-americanos", analisou Bruno.

 

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