Doutoranda apresenta pesquisa em conferência no Quênia - Unicap

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Doutoranda apresenta pesquisa em conferência no Quênia

Publicado Por: JOÃO PAES

 

A milhares de quilômetros do Recife, em uma sala de conferências de Nairóbi, no Quênia, a doutoranda Clara Maria Luna Varjão Schettini encontrou algo que nem sempre é fácil para quem pesquisa o mormonismo no Brasil: dezenas de estudiosos interessados no mesmo tema, mas com histórias, experiências e perspectivas bastante diferentes. Entre os dias 29 e 31 de outubro, a pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) participou de um encontro internacional que colocou o continente africano no centro de uma discussão acadêmica tradicionalmente dominada por pesquisadores norte-americanos.

A conferência anual do Global Mormon Studies (GMS), realizada pela primeira vez na África, teve como tema Crossing Boundaries: Mormonism in Africa within Global Christianity (Atravessando Fronteiras: O Mormonismo na África no Contexto do Cristianismo Global). O evento reuniu pesquisadores de diferentes países para discutir a presença, a história e as transformações das tradições religiosas vinculadas ao mormonismo, com atenção especial às experiências africanas e às relações dessas comunidades com o cristianismo mundial.

Escolher Nairóbi não foi algo casual. O encontro procurou ampliar a participação de pesquisadores africanos e questionar a predominância de interpretações construídas a partir dos Estados Unidos, onde historicamente se concentra grande parte da produção acadêmica sobre o tema.

Organizada por uma rede internacional independente, sem vinculação institucional com denominações religiosas, a conferência buscou incentivar abordagens interdisciplinares e valorizar perspectivas frequentemente pouco representadas nesse campo de estudos.

Para a doutoranda, que também é historiadora, a participação representou uma oportunidade de aprofundar uma trajetória acadêmica dedicada à investigação da história de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, especialmente das experiências e da atuação das mulheres na instituição.

Ela já havia participado de uma edição presencial da conferência no México, em 2024, e do encontro virtual realizado em 2025. Desta vez, conseguiu uma bolsa oferecida pela organização para viabilizar sua presença no Quênia.

A história do mormonismo no Brasil em diálogo com a África

Durante o encontro, Clara apresentou um trabalho sobre as relações entre a chegada e a expansão de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias no Brasil e a influência da herança africana na formação da sociedade brasileira. A apresentação recuperou investigações desenvolvidas durante sua iniciação científica na Unicap e estabeleceu um diálogo com estudos de pesquisadores internacionais sobre a história da denominação.

Um dos pontos abordados foi a maneira como a presença de uma população brasileira profundamente marcada pela ancestralidade africana se relacionou com a atuação dos primeiros missionários e com as questões raciais existentes na tradição religiosa. Durante parte de sua história, até 1978, a Igreja manteve restrições que impediam homens negros de ascendência africana de receber o sacerdócio e pessoas negras de participar de determinadas cerimônias nos templos.

Essas restrições, posteriormente revogadas, constituem um aspecto importante para compreender os desafios da expansão internacional da denominação, especialmente em sociedades racialmente diversas, como a brasileira.

Ao aproximar a experiência histórica do Brasil das discussões realizadas no continente africano, a pesquisadora do PPGCR procurou mostrar como acontecimentos religiosos não podem ser compreendidos exclusivamente a partir de seus centros institucionais. As características culturais, sociais e históricas dos países onde uma religião se estabelece também influenciam profundamente suas formas de organização, recepção e desenvolvimento.

A abordagem dialoga com seu percurso acadêmico. Em 2024, ela defendeu na Unicap a dissertação de mestrado Onde estão as mulheres na história das religiões? Um estudo da agência feminina a partir de A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, sob orientação do professor Luiz Carlos Luz Marques. O trabalho investigou a participação feminina na história religiosa, campo que permanece central em seus interesses de pesquisa.

Ela observa que, embora o mormonismo tenha presença consolidada no Brasil, ainda são relativamente poucos os pesquisadores brasileiros dedicados especificamente ao assunto. Por isso, encontros internacionais especializados oferecem oportunidades importantes de acesso a bibliografias, fontes documentais e interpretações que dificilmente seriam reunidas em eventos acadêmicos mais abrangentes.

O encontro com outras perspectivas

Se a apresentação do trabalho foi importante, Clara destaca que uma das experiências mais enriquecedoras aconteceu no contato direto com os demais participantes. A conferência reuniu, segundo sua estimativa, entre 40 e 50 pessoas ao longo dos três dias, um formato que favoreceu conversas e a troca de experiências entre pesquisadores de diferentes instituições.

Entre os participantes estavam estudiosos dos Estados Unidos e de países africanos, como África do Sul, Moçambique e Nigéria. As conversas permitiram conhecer investigações desenvolvidas em contextos religiosos e culturais distintos, ampliando as possibilidades de interpretação de questões que também fazem parte da realidade brasileira.

“O que mais foi enriquecedor para mim foi a oportunidade de conversar com pesquisadores diversos”, conta.

Para ela, a experiência também contribuiu para repensar o modo como determinados acontecimentos são interpretados na pesquisa acadêmica. O contato com estudiosos africanos permitiu observar a história do mormonismo a partir de experiências que nem sempre encontram espaço nas narrativas produzidas nos Estados Unidos ou na Europa.

Ao comentar a importância desse intercâmbio, ela afirma que ouvir pesquisadores africanos e conhecer suas abordagens “ajudou muito para eu conseguir decolonizar um pouco a minha visão na minha pesquisa”.

A experiência em Nairóbi deu continuidade a outros contatos internacionais estabelecidos durante sua formação, inclusive em atividades acadêmicas realizadas na própria Unicap. A doutoranda recorda a participação de pesquisadores africanos em uma conferência internacional promovida na universidade em parceria com o Seminário Teológico de Princeton, encontro que também contribuiu para ampliar seu diálogo com diferentes perspectivas sobre a religião.

Uma rede acadêmica que atravessa fronteiras

O Global Mormon Studies desenvolve uma proposta de internacionalização da pesquisa sobre as diferentes tradições religiosas originadas do movimento de Restauração iniciado por Joseph Smith no século XIX. A rede procura estimular a participação de pesquisadores de diversas regiões do mundo, por meio de conferências, publicações e iniciativas de cooperação acadêmica.

A preocupação aparece na própria organização dos encontros. Além de realizar edições presenciais em diferentes países, a rede promove atividades virtuais, oferece possibilidades de apresentação remota e disponibiliza bolsas para pesquisadores que necessitam de apoio financeiro para participar dos eventos.

A realização da conferência no Quênia representou um passo importante nessa proposta de descentralização. Ao levar o encontro para o continente africano, os organizadores buscaram aproximar a discussão acadêmica de uma região onde as tradições vinculadas ao mormonismo vêm apresentando crescimento expressivo e desenvolvendo experiências religiosas próprias.

Existe também um acompanhamento nas conversas sobre a possibilidade de uma futura edição presencial da conferência acontecer no Brasil. Segundo Clar, já existem diálogos com integrantes do comitê organizador sobre a viabilidade da iniciativa, que dependeria, entre outros fatores, da construção de parcerias com instituições universitárias brasileiras. Por enquanto, trata-se de uma possibilidade em discussão, sem definição sobre sua realização.

Ao incentivar outros estudantes de pós-graduação a buscar oportunidades semelhantes, Clara Schettini ressalta que o contato com instituições que trabalham com diferentes metodologias e referenciais teóricos pode transformar a maneira como um pesquisador compreende seu objeto de estudo. Afinal, como resume, esse intercâmbio “só tem como enriquecer a nossa pesquisa”.

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