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20ª Caminhada dos Terreiros reúne fé e resistência
Os cânticos se misturaram ao movimento das ruas do Centro do Recife na tarde desta quarta-feira (4). A Praça da República se encheu de vestimentas tradicionais, turbantes e fios de contas, enquanto representantes de terreiros de Pernambuco e de outros estados se reuniam para a 20ª Caminhada dos Terreiros de Pernambuco. A mobilização, que percorreu o Centro da cidade, reafirmou uma mensagem construída ao longo de duas décadas: a liberdade de viver a própria fé, sem racismo e sem intolerância.
A caminhada marca a abertura da programação do Mês da Consciência Negra no estado. A cada edição, reúne diferentes tradições religiosas de matriz africana e afro-indígena, celebra a memória dos ancestrais e leva ao espaço público reivindicações que permanecem atuais. Entre elas estão o enfrentamento ao racismo religioso, à discriminação e às violências sofridas pelas comunidades de terreiro.
Para Rafaela Ribeiro, integrante da articulação da Caminhada dos Terreiros, chegar à vigésima edição é motivo de orgulho, mas também de consciência sobre a luta que ainda precisa continuar. “Representar a caminhada nesses vinte anos é representar a vida, é representar a resistência e a existência de um povo negro, periférico”, afirmou. Quando convidada a resumir o sentimento que a mobilização desperta, escolheu uma palavra: “gratidão”.
O significado de levar práticas religiosas às ruas também apareceu no depoimento de Antonio Carlos. Ele destacou a possibilidade de compartilhar com a população uma cerimônia que, tradicionalmente, acontece dentro dos terreiros. “É uma cerimônia aberta e tem a mesma qualidade que a dos terreiros”, disse. Para ele, participar desse momento é, sobretudo, motivo de gratidão.
Rafaela ressaltou ainda o acolhimento aos participantes que vieram de outros estados. Para ela, a presença dessas comunidades amplia os encontros e reforça a força coletiva de quem reivindica respeito à própria fé. Assim, a caminhada se faz, ao mesmo tempo, celebração religiosa, encontro de tradições e manifestação pública por direitos.
Um símbolo de justiça dentro do Palácio
Entre os momentos mais marcantes da programação esteve a cerimônia realizada, antes do cortejo, no Palácio da Justiça. Pela primeira vez em mais de 200 anos de história, o Tribunal de Justiça de Pernambuco (TJPE) recebeu o Oxê de Xangô, um machado de duas lâminas associado ao orixá da justiça. O símbolo representa equilíbrio e imparcialidade e passou a ocupar um espaço de reconhecimento dentro da instituição.
A entrega foi feita pela ialorixá Mãe Elza de Yemojá ao presidente do TJPE, desembargador Francisco Bandeira de Mello. Diante de lideranças religiosas reunidas no hall e no Salão Nobre, ela agradeceu a abertura do Tribunal às demandas dos povos de terreiro. “Agradeço tudo o que o senhor fez por nós, por abrir as portas e entender as nossas causas”, declarou.
Em resposta, Bandeira de Mello reconheceu a história de resistência dessas comunidades e reafirmou o compromisso do Judiciário pernambucano com a diversidade e os direitos humanos. Segundo o desembargador, combater o racismo e todas as formas de discriminação “será sempre um compromisso inegociável deste Tribunal”. A cerimônia também homenageou o desembargador Eudes França e a juíza Luciana Maranhão, respectivamente presidente e vice-presidente da Comissão de Políticas Judiciárias de Equidade Racial e suas Interseccionalidades do TJPE. A liderança religiosa Edson Axé também participou do ato.
A presença do Oxê de Xangô no Palácio da Justiça deu dimensão institucional a uma reivindicação que os participantes da caminhada levam há anos às ruas: o reconhecimento das religiões de matriz africana e o direito de praticá-las sem perseguição. É um tema que atravessa também os estudos em Ciências da Religião, ao colocar em evidência a diversidade religiosa e a presença do sagrado na vida pública.
Para os povos de terreiro, entretanto, a conquista não encerra a mobilização. A caminhada segue como espaço de memória, acolhimento e denúncia, lembrando que a liberdade religiosa precisa ser garantida para além das cerimônias. Como resumiu Rafaela Ribeiro, “iremos resistir enquanto ferirem a nossa existência”.
*Com informações da Asscom do TJPE e da TV Conecta Recife.
Foto: Assis Lima/Ascom TJPE
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