CELEBRANDO A INDEPENDÊNCIA QUE AINDA PRECISAMOS CONQUISTAR: A LIBERDADE DE PENSAR - Unicap

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CELEBRANDO A INDEPENDÊNCIA QUE AINDA PRECISAMOS CONQUISTAR: A LIBERDADE DE PENSAR

Publicado Por: Karoline da Silva Menezes
Texto de William Tavares

Enquanto vou rezando o fim do mês das vocações, vejo por todos os lados os movimentos sociais e igrejas numa preparação para o grito dos excluídos: uma articulação popular, pastoral e política para manifestar contra as injustiças sociais que acontece nas comemorações da independência... o fato é que o sete de setembro chega todos os anos vestido de verde e amarelo, trazendo discursos, bandeiras, hinos, desfiles e aquela velha pergunta que aprendemos desde cedo: afinal, o Brasil ficou independente de quem? Penso que uma pergunta mais inquietante, porém, seja outra: e nós, ficamos independentes de quê?

Independência é uma palavra bonita, dessas que parecem maiores do que cabem no dicionário ou na boca do sapo... Fala de autonomia, liberdade, capacidade de escolher os próprios caminhos, e no entanto basta olhar um pouco para dentro de nós para perceber que a coisa não é tão simples assim. Ninguém nasce independente, nós dependemos do colo para sobreviver, da palavra do outro para aprender, do cuidado para crescer, do afeto para nos tornarmos gente... E, pensando assim, a maturidade crítica não será aprender a não depender de ninguém, mas descobrir de quem, de quê e para que vale a pena depender.

Há dependências que nos aprisionam e outras que nos humanizam. Eu dependo do outro para ser quem sou, dependo de quem me ensinou uma palavra, de quem me estendeu a mão quando eu tropecei, de quem acreditou em mim quando eu mesmo duvidei, pois somos seres de relação. A verdadeira independência, portanto, não pode ser confundida com autossuficiência, e quem pensa que não precisa de ninguém talvez ainda não tenha descoberto a beleza de ser humano...

O fato é que existe uma liberdade que ninguém deveria nos roubar: a liberdade de pensar, discernir, escolher e assumir as consequências das próprias escolhas, e é aqui que começa nossa inquietação, pois vivemos cercados de influenciadores: Influenciam o que vestimos, o que comemos, o que compramos, o que admiramos e, algumas vezes, até aquilo que devemos odiar. Há quem pense por nós, escolha por nós, fale por nós e até determine quem merece nossa indignação. Tem situação que basta um vídeo curto, uma frase fora de contexto ou uma opinião repetida milhares de vezes para transformar uma mentira em quase verdade.

Então me pergunto: somos realmente independentes quando terceirizamos nossa consciência? Acho que a nova forma de colonização não vem mais em caravelas,  penso que chegue silenciosamente pela tela do celular, entrando pela porta da distração, sentando-se no sofá da nossa sala e começando a pensar por nós. É curioso que conquistamos a liberdade de falar, mas nem sempre aprendemos a liberdade de escutar. Temos acesso a uma quantidade quase infinita de informação, mas isso não significa que tenhamos conhecimento e podemos escolher entre milhares de vozes e, ainda assim, ouvir somente aquelas que confirmam aquilo que já pensamos.

Não acredito que isso seja independência, antes é apenas uma prisão com muitas janelas, e acho que por isso, talvez não exista símbolo mais poderoso da independência do que uma pessoa aprendendo a ler. Quando alguém descobre que aquelas letras aparentemente silenciosas podem contar histórias, denunciar injustiças, revelar direitos, registrar memórias e abrir mundos, alguma coisa dentro dela se acende...

A alfabetização não ensina apenas a juntar letras. Ensina a juntar sentidos, e quem aprende a ler começa, pouco a pouco, a ler o mundo. Então lê a palavra, mas também lê a realidade. Um leitor Percebe a propaganda, questiona a notícia, reconhece a manipulação, descobre seus direitos, compreende seus deveres. Aprende que nem toda voz que fala alto está dizendo a verdade... Provavelmente seja por isso que a educação incomoda tanto quando é levada a sério. Para mim uma pessoa educada não é aquela que sabe todas as respostas, ela é aquela que aprendeu a fazer perguntas. Eu sinto que por aqui confirmamos que esta seja uma das maiores formas de independência que podemos conquistar: não perder a capacidade de perguntar.

Descobrimos que é preciso perguntar quem ganha quando determinada coisa acontece, quem fica de fora e quem não está sendo ouvido? Por que algumas vidas parecem valer mais do que outras e por que ainda existem crianças sem escola, adultos sem alfabetização, famílias sem moradia, trabalhadores sem dignidade? Uma educação verdadeiramente libertadora não fabrica pessoas que obedecem melhor, antes ajuda a formar pessoas que pensam melhor, convivem melhor e participam melhor da construção do mundo melhor...

Vejo que há uma dimensão profundamente espiritual nisso tudo... Na minha compreensão hermenêutica que nasce da leitura do Evangelho, sei que Jesus nunca pareceu muito interessado em formar súditos de consciência adormecida e o seu jeito de ensinar era feito de perguntas, parábolas, encontros e provocações. Ele não entregava tudo pronto, na verdade fazia a pessoa caminhar por dentro da própria resposta.

Muitas vezes entendo que a fé também seja uma escola de liberdade. Não a liberdade de fazer simplesmente tudo o que desejo, mas a liberdade de escolher aquilo que dá mais vida: Liberdade de não ser escravo do ego, do medo, da vaidade, do preconceito, do consumo, da opinião alheia e a liberdade de não precisar diminuir o outro para me sentir maior. No fundo, talvez nossa maior independência seja esta de tornar-nos livres para amar, porque quem não consegue amar continua preso a si mesmo.

Aprendi que história é também opção pelas fontes, e entendo que o Brasil proclamou sua independência em 1822, mas ainda temos muitas independências para proclamar: Independência da ignorância, da fome, do racismo, da violência, da intolerância, da corrupção, da mentira transformada em verdade, e a Independência de uma educação que ainda não chega a todos com a mesma dignidade...

...E talvez cada criança que aprende a ler seja uma pequena proclamação de independência, e também é assim com cada jovem que aprende a pensar criticamente, cada adulto que descobre que pode recomeçar, cada comunidade que se organiza para defender seus direitos e cada pessoa que troca o preconceito pela curiosidade e a indiferença pela solidariedade.

Talvez o grito mais bonito do nosso tempo não seja simplesmente “Independência ou morte!”, acaso pode trocar e vai que precisa ser: independência para viver, aprender, escolher e cuidar... Tenho rezado para que neste 7 de setembro a bandeira não seja apenas carregada pelas mãos, mas também pelo coração, e que a nossa independência não termine numa data do calendário, mas que ela comece dentro de nós.

Trabalho e acredito que um país só será verdadeiramente independente quando seus filhos e filhas puderem pensar com liberdade, aprender com dignidade, escolher com consciência e viver sem que a pobreza, a ignorância ou o preconceito lhes roubem o direito de sonhar. No fim das contas, penso que a pergunta continue sendo a mesma, só que agora dirigida a cada um de nós, no silêncio onde nenhuma bandeira consegue responder: De que ainda preciso me libertar para que a minha vida seja, de verdade, uma vida independente?

William Tavares, poeta e teólogo.

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