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Bênção de São Félix avança com pesquisa da Unicap

Publicado Por: JOÃO PAES

 

A Bênção de São Félix, tradição centenária que reúne fiéis todas as sextas-feiras na Basílica da Penha, no Centro do Recife, está em fase avançada do processo que pode reconhecê-la como patrimônio cultural imaterial de Pernambuco. A pesquisa que dá base ao pedido vem sendo desenvolvida pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), em parceria com a Fundarpe e com o apoio dos frades capuchinhos.

O trabalho foi tema de uma roda de diálogo realizada na Unicap, durante a 19ª Semana Estadual do Patrimônio Cultural de Pernambuco. O encontro reuniu pesquisadores, representantes da Fundarpe, frades, professores e estudantes e também apresentou ao público a versão final do documentário produzido para integrar o dossiê sobre a celebração.

Frei França Fernandes lembrou que a força da tradição ficou ainda mais evidente a partir de 2007, quando a Basílica da Penha foi interditada para uma longa restauração. Durante oito anos, a bênção continuou sendo realizada em uma estrutura provisória ao lado do templo. Mesmo sem acesso à igreja, os devotos continuaram chegando e mantendo a celebração viva. “A bênção permaneceu e se manteve viva e vibrante”, afirmou.

O frade destacou ainda que a Bênção de São Félix ultrapassa os limites do próprio catolicismo. Segundo ele, a celebração recebe católicos, evangélicos e também pessoas ligadas às religiões de matriz africana, uma diversidade que ajuda a mostrar o espaço que a prática conquistou na vida religiosa e cultural do Recife.

Representando a Fundarpe, Jacira Silva de França explicou que o reconhecimento como patrimônio imaterial não significa apenas receber um título. O registro também envolve a criação de ações de salvaguarda para ajudar a manter a manifestação viva e garantir que seus saberes e práticas continuem sendo transmitidos. “Salvaguardar um bem cultural significa desenvolver ações, programas, estratégias para que eles continuem existindo”, explicou.

O professor Silvério Pessoa abordou a Bênção de São Félix a partir dos estudos sobre memória cultural de Aleida Assmann. Para ele, a tradição permanece porque não está guardada apenas em documentos, fotografias ou notícias antigas. Ela continua no gesto, no ritual, na ida semanal dos devotos à basílica e nas histórias transmitidas entre as gerações. O desafio do processo de patrimonialização, segundo o professor, é registrar essa memória sem transformar uma prática viva apenas em objeto de arquivo.

O professor Afonso Chaves explicou que a construção do dossiê começou em 2020, quando a Fundarpe procurou a Unicap para desenvolver o estudo. A pandemia interrompeu o trabalho pouco depois, mas a pesquisa foi retomada e passou a reunir documentos, fotografias, entrevistas, registros históricos e informações coletadas em campo.

Segundo Afonso, o levantamento mostra que a Bênção de São Félix reúne características fundamentais para o reconhecimento como patrimônio. “Tem memória, tem pertencimento comunitário, tem gente que se responsabiliza por essa experiência enquanto coletividade e tem um modo de fazer”, resumiu. A pesquisa também aproximou estudantes da graduação e da pós-graduação e estimulou novos estudos sobre religião, patrimônio e manifestações culturais.

O dossiê está passando pelos últimos ajustes antes de seguir na tramitação que envolve a Fundarpe, a Secretaria de Cultura e o Conselho Estadual de Preservação do Patrimônio Cultural, responsável pela decisão sobre o registro. Enquanto o processo avança, a Bênção de São Félix continua acontecendo todas as sextas-feiras, reunindo antigos devotos e novas gerações em torno de uma tradição que já faz parte da memória religiosa e cultural de Pernambuco.

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