AINDA PRECISAMOS FALAR DE SETEMBRO AMARELO? - Unicap
Título Cabeçalho - Dar a Pensar
Dar a Pensar

AINDA PRECISAMOS FALAR DE SETEMBRO AMARELO?
Precisamos falar de Setembro Amarelo? Essa é uma das questões em voga ao se questionar a eficácia dessa campanha, que teve início em 2015. Todavia, antes de tomar qualquer resposta como verdadeira e norteadora, precisamos problematizar como os debates e as ações acabaram sendo engolidos pela agenda neoliberal em diferentes contextos.
A iniciativa carrega, em sua gênese, a proposta de criar espaços para um tema que sempre foi tabu no cotidiano, pois esse assunto foi historicamente silenciado nas conversas ou, quando mencionado, tratado em uma esteira de culpa e pecado. Isso ainda deixa marcas na sociedade, na forma de pensar e, principalmente, de acolher as pessoas diante dessa situação-limite.
Mas, diante desses debates a favor e contra, essa pergunta precisa ser feita: ainda precisamos falar de Setembro Amarelo ou precisamos falar do direito à vida e dos direitos básicos que são cotidianamente negados e negligenciados? Setembro Amarelo se esvazia política e socialmente diante de ações pontuais, frases motivacionais, discursos moralistas e de autoajuda, além de se tornar palco para a promoção de profissionais e negócios, seguindo o modelo clássico do capitalismo, que busca transformar qualquer ação em lucro, inclusive a dor humana.
A dor humana não pode ser compreendida, nem ficar restrita a uma dimensão existencial ou vinculada apenas aos transtornos. Não se trata de negar que tais elementos compõem o cenário do suicídio, mas precisamos fazer uma leitura crítica, uma vez que se trata de um fenômeno multifatorial e complexo. As ações e discussões não podem ser realizadas de forma superficial e simplista.
Ressaltando sempre que o sofrimento humano não pode ser moeda de troca e não pode ser compreendido, e, consequentemente, acolhido genuinamente, se for lido apenas em uma dimensão individual. Logo, é importante manter a criticidade, pois, como é próprio do neoliberalismo, os problemas e dilemas sociais e políticos são deslocados, propositalmente, para a esfera do individual.
Falar de suicídio é falar de direito à vida e de como nosso modelo de sociedade potencializa ou diminui a capacidade de existir de sujeitos e grupos; é falar de quem tem acesso à vida ou, como nos lembra Foucault, de quem é deixado para morrer. É fundamental pensar, problematizar e lutar contra essa necropolítica que tem alvo direto, como discute o filósofo camaronês Achille Mbembe.
Faz-se necessário pensar políticas públicas e nosso modelo de existência de forma coletiva, não apenas o sujeito isolado. Não podemos reduzir essa temática ao mês de setembro, mas podemos aproveitar esse período para propor ações assertivas para o ano todo, conectadas com a realidade local, que façam sentido nos espaços e grupos de que participamos, e não mais um mês para a entrega de cartões ou laços para serem usados nas empresas e ambientes que adoecem e despotencializam o sujeito ao longo do ano.
É contraditório, se não quase cruel, falar de preservação e cuidado à vida em espaços em que a meta vale mais que a pessoa, em que o salário é apenas para sobreviver e em que a exigência de produção suga a existência. É pensar o trabalho e a saúde mental de forma ampla, uma vez que o trabalho é elemento central na constituição da subjetividade no Ocidente, tanto para quem está inserido no mercado de trabalho formal como para os indivíduos que se encontram no desemprego, escancarando como sua ausência produz adoecimento e, muitas vezes, o apagamento do sujeito.
É indispensável falar de mobilidade urbana ao refletir sobre saúde mental, dado que o deslocamento nas cidades tem se tornado elemento degradante, nas mesmas cidades que insistem em colocar outdoors com dicas de cuidados que, muitas vezes, culpabilizam mais o sujeito do que produzem qualquer efeito de promoção da vida. Isso mostra como é difícil falar de cuidado com a vida quando os direitos básicos passam a ser negociados e citados em nossas conversas como privilégios.
O fenômeno do suicídio cerca o mundo juvenil; todavia, não podemos individualizar o sofrimento ao ponto de negar que essa parcela da população se encontra tão afetada pelos problemas políticos e sociais, pois se vê sem perspectiva em relação ao próprio futuro, uma vez que as mudanças climáticas, o desemprego e os demais mecanismos do sistema sufocam a possibilidade de existir, cristalizando sua capacidade de sonhar e projetar uma vida digna.
Falar de cuidado à vida é falar de políticas públicas bem articuladas para as pessoas idosas, uma população empobrecida e desassistida pelo poder público, que vê suas dores e seus dilemas políticos e sociais serem reduzidos a discursos sobre solidão e limitação, que também são uma realidade, mas não podem ser o único olhar. E não podemos deixar de pensar em ações educativas e acolhedoras para o gênero masculino, que ainda continua sendo maioria no número de suicídios. Precisamos fazer uma leitura dessas estatísticas de forma contextualizada e crítica, e não apenas como marcadores isolados.
Como podemos deixar de fora de nossas análises a precarização e a falta de reconhecimento dos profissionais da saúde, que costumam ficar ainda mais sobrecarregados no Setembro Amarelo? Como podemos não discutir que pessoas que exercem o trabalho de cuidadoras sejam ignoradas em suas necessidades e sofrimentos? Sujeitos que muitas vezes chegam ao limite na busca de promoção e cuidado de pessoas e coletivos que são desamparados pelo poder público e inviabilizados pelo modelo de sociedade.
Como podemos falar de prevenção ao suicídio sem falar das mudanças climáticas e de seus desdobramentos reais na saúde mental da população, das moradias insalubres e do racismo ambiental? Tudo isso também diz respeito às condições em que a vida se desenvolve e vai na contramão dos estudos que apontam a importância do contato com ambientes cuidados e com áreas verdes para o bem-estar integral do ser humano.
Diante dos questionamentos sobre manter e promover o Setembro Amarelo, precisamos pensar essas questões não apenas em torno da valorização da vida. Não se trata de dizer “aguente firme, peça ajuda”, lembrando que isso também é importante. Contudo, mais do que uma valorização da vida, é preciso pensar de que forma essa vida está se dando, de que forma as políticas públicas estão sendo fomentadas, se o SUS está sendo fortalecido e, além dessas questões, se o sistema produz morte em vez de vida. Caso contrário, não apenas o Setembro Amarelo, mas qualquer campanha corre o risco de ficar desconectada das políticas e ações efetivas de promoção e valorização da vida.
*Janaine Gonçalves é psicóloga, mestra em Filosofia e licenciada em Filosofia. Atua na clínica psicológica e desenvolve trabalhos de formação, cursos e grupos. Sua trajetória reúne Psicologia, Filosofia e Educação, com interesse pelas dimensões subjetivas, sociais e coletivas da experiência humana.
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Publicador de Conteúdos e Mídias
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