Livro reúne testemunhos, experiências pastorais e reflexões acadêmicas sobre pessoas católicas LGBTQIA+ no Brasil - Unicap
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Livro reúne testemunhos, experiências pastorais e reflexões acadêmicas sobre pessoas católicas LGBTQIA+ no Brasil

Livro reúne testemunhos, experiências pastorais e reflexões acadêmicas sobre pessoas católicas LGBTQIA+ no Brasil
Como conciliar a fé católica com a diversidade de orientações sexuais e identidades de gênero? Como construir comunidades nas quais todas as pessoas possam viver sua espiritualidade com dignidade, participar da vida eclesial e contribuir para a missão da Igreja? Essas são algumas das questões discutidas no livro recém-lançado A Igreja é de todos, todos, todos: reflexões de pessoas católicas LGBTQIA+, aliadas e familiares, publicado pela Editora Pluralidades e organizado por Jeferson Batista Silva, jornalista e pesquisador em Antropologia Social; Camila Santos, administradora; Luis Rabello, teólogo; e Bruno Feitosa, jornalista.
O título da obra faz referência à mensagem do papa Francisco durante a Jornada Mundial da Juventude (JMJ), em Lisboa, em 2023, quando o pontífice afirmou que “na Igreja há lugar para todos, todos, todos”. A mensagem de acolhimento inspira a reflexão proposta pelo livro sobre a participação de pessoas LGBTQIA+ na vida e na missão da Igreja Católica.
Um mosaico de vozes e experiências
Organizado em três eixos — Testemunhos, Experiência Pastoral e Reflexão Teórico-Analítica —, o livro apresenta um conjunto plural de experiências e conhecimentos produzidos por pessoas católicas LGBTQIA+, familiares, pessoas aliadas, cristãos leigos e leigas, sacerdotes, religiosas e religiosos, agentes pastorais, lideranças comunitárias e pesquisadoras e pesquisadores.
Os capítulos abordam temas como espiritualidade, relações familiares, juventudes, saúde mental, diversidade sexual e de gênero, cidadania religiosa, antirracismo, sinodalidade, teologia, direitos humanos e participação na vida da Igreja. Também apresentam experiências de acolhimento e acompanhamento pastoral, reflexões sobre os desafios enfrentados por pessoas LGBTQIA+ nas comunidades de fé e análises sobre as possibilidades de construção de uma Igreja mais inclusiva.
Entre os testemunhos, estão histórias de pessoas que enfrentaram a exclusão e encontraram caminhos de reconciliação com a fé, experiências de famílias que descobriram novas formas de acolhimento e relatos sobre a importância das comunidades e dos grupos de apoio na construção de trajetórias de vida.
A seção dedicada às experiências pastorais apresenta iniciativas desenvolvidas em diferentes regiões do Brasil e em espaços internacionais, incluindo grupos de acompanhamento pastoral, experiências de diálogo ecumênico e ações voltadas à construção de comunidades inclusivas.
Já o eixo de reflexão teórico-analítica reúne contribuições que articulam teologia, ciências sociais e experiências concretas, discutindo questões como cidadania religiosa, saúde mental, juventudes, diversidade, antirracismo e os desafios contemporâneos da Igreja.
Entre os autores está o padre Isaías Gomes da Silva, SJ, coordenador do IHU Unicap, que assina o capítulo “Os preferidos do Reino: antirracismo em perspectiva pastoral”. O texto reflete sobre a fé do povo brasileiro afro-indígena e sobre a experiência religiosa como fonte de resistência, memória e reexistência diante das desigualdades e da marginalização.
Uma obra construída a partir da trajetória da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+
A ideia de produzir o livro surgiu em 2024, durante as comemorações dos dez anos da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+. Criada em 2014, a organização constitui uma articulação nacional dedicada à participação de pessoas católicas LGBTQIA+ na vida da Igreja, protagonizada pelos próprios sujeitos desse movimento.
A Rede nasceu da articulação entre comunidades que, espalhadas pelo país, passaram a compartilhar experiências de fé, acolhimento e ação pastoral. Ao longo de sua primeira década, surgiram grupos, núcleos e coletivos em diferentes estados e formatos, multiplicaram-se iniciativas de formação e espiritualidade e ampliou-se o diálogo com bispos, padres, religiosas, religiosos e lideranças cristãs leigas.
Atualmente, a Rede atua em três frentes principais: dar visibilidade pública às suas pautas, oferecer acompanhamento espiritual e pastoral às pessoas participantes e apoiar a criação de novos grupos. Sua atuação também contribui para a construção de espaços de pertencimento e para a defesa da dignidade e dos direitos de pessoas LGBTQIA+ dentro e fora das comunidades eclesiais.
A trajetória, contudo, é marcada por desafios. Pessoas católicas LGBTQIA+, suas famílias e pessoas aliadas frequentemente enfrentam discursos que questionam sua presença na Igreja e sua possibilidade de conciliar identidade, orientação sexual e experiência de fé. Apesar disso, permanecem comprometidas com uma Igreja fundada na comunhão, na participação e na missão.
É dessa caminhada que nasce a publicação. Mais do que contar uma história linear da Rede, o livro reúne um mosaico de vozes e perspectivas que refletem a diversidade de territórios, gerações, identidades, orientações sexuais, experiências pastorais e trajetórias acadêmicas de um movimento que tem como horizonte comum a defesa da dignidade humana e o seguimento de Jesus Cristo.
Na apresentação, a equipe organizadora destaca que a publicação pretende preservar a memória de experiências que ajudaram a transformar vidas, comunidades e a própria compreensão do lugar das pessoas LGBTQIA+ na Igreja.
“Escolhemos fazer um livro porque acreditamos na força da memória. Registrar histórias é também preservá-las, valorizá-las e oferecê-las às próximas gerações”, afirmam os organizadores e a organizadora.
A obra também foi concebida como instrumento pastoral para grupos e comunidades, contribuição ao diálogo com organismos eclesiais e fonte de informação para quem deseja compreender melhor a experiência de pessoas católicas LGBTQIA+, ajudando a desconstruir preconceitos e promover uma cultura de encontro.
Sinodalidade, escuta e participação
O prefácio, escrito por Sônia Gomes, ex-presidenta do Conselho Nacional do Laicato do Brasil (CNLB) e participante do Sínodo sobre a Sinodalidade, destaca a importância da acolhida da Rede ao organismo eclesial, em 2022, como uma experiência concreta de compromisso com uma Igreja que reconhece a diversidade e busca caminhar em comunhão.
A autora relaciona essa experiência ao caminho sinodal proposto pelo papa Francisco, baseado na escuta, no diálogo, no discernimento comunitário e na participação. O texto enfatiza a importância de reconhecer as comunidades como espaços de encontro, cuidado e missão, especialmente junto às pessoas e grupos historicamente invisibilizados.
Nesse horizonte, a sinodalidade é apresentada não apenas como um processo institucional, mas como um caminho espiritual e pastoral que convida a Igreja a reaprender a escutar e caminhar junto.
Um convite à escuta e à comunhão
Na quarta capa, Dom Arnaldo Carvalheiro Neto, bispo de Jundiaí (SP) e referencial da CNBB para a Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+, destaca a diversidade de experiências reunidas na publicação e seu convite à escuta: “Este livro nasceu de muitas mãos, muitas histórias e, sobretudo, de muitas experiências de fé. Suas páginas reúnem vozes diversas que testemunham buscas, feridas, resistências, descobertas e esperanças de pessoas LGBTQIAPN+ que vivem sua fé e desejam participar plenamente da vida e da missão da Igreja.”
O bispo apresenta a obra como uma contribuição para uma Igreja capaz de reconhecer a dignidade de cada pessoa e construir relações marcadas pelo encontro, pelo respeito, pela misericórdia e pela comunhão. Ao final, deixa um convite às pessoas leitoras para que se aproximem das diferentes vozes reunidas no livro com o coração aberto, reconhecendo nelas caminhos para que ninguém caminhe sozinho e para que a Igreja seja cada vez mais “casa de comunhão, participação e esperança”.
*Jeferson Batista Silva, jornalista, antropólogo e secretário executivo da Rede Nacional de Grupos Católicos LGBT+
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