Entrevista com PLÍNIO PRADO JR. - Unicap

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Entrevista com PLÍNIO PRADO JR.

Publicado Por: Redação

“A verdadeira escola da vida é a literatura”

(Proust e o “romance do inconsciente”)

 

 [Apresentação]

Em sua última passagem pelo Brasil, em agosto e setembro de 2023, o Prof. Dr. Plínio W. Prado Jr., do Departamento de Filosofia da Universidade de Paris 8, ministrou na Universidade Católica de Pernambuco o curso “A verdadeira escola da vida é a literatura” - uma introdução à leitura de Em busca do tempo perdido (À la recherche du temps perdu), a obra-prima do escritor francês Marcel Proust.

O curso foi promovido pelo Programa de Pós-graduação em Psicologia Clínica, em parceria com o Programa de Pós-graduação em Ciências da Linguagem da Universidade.

O romance Em busca do tempo perdido, uma das maiores criações da literatura universal, é dividido em sete volumes, editados entre 1913 e 1927, os três últimos publicados postumamente. Proust morreu em 18 de novembro de 1922 (aos 51 anos), em decorrência das crises da asma que havia se manifestado desde a sua infância.

 

[O Autor]

Plínio Walder Prado Jr., brasileiro radicado na França, é professor e ensaísta, docteur d’État em filosofia pela Universidade de Paris 8 (sob a direção de J.-F. Lyotard) e diretor de pesquisas do Departamento de Filosofia dessa mesma universidade. Ele ensinou no Colégio Internacional de Filosofia de Paris e na École des Hautes Études en Sciences Sociales (EHESS), e é professor convidado para ministrar cursos e conferências em diversas universidades estrangeiras : Moscou, São Petersburgo, Hamburgo, Jerusalém, Los Angeles, etc.

Seu trabalho, partindo de uma reflexão sobre os limites do exprimível, situa-se na intersecção entre filosofia, psicanálise e literatura.  Ele busca elaborar uma linha geral de resistência à anexação contemporânea, tecnocientífica-cultural, dos corpos e das psiquês. Fio condutor: a força obscura irredutível que em cada um excede, o faz delirar, mas também pensar, amar, criar.

Esse trabalho deu lugar a numerosas publicações, dedicadas à falência do humanismo e à ruína da política (Kant, Adorno, Lyotard), à “condição de infância”, o encontro amoroso e a resistência artística (Freud, Proust, Beckett), bem como ao “Princípio de Universidade” e às “figuras do anti-universitário” (Nietzsche, Wittgenstein, Lacan).

Uma parte desses escritos acha-se disponível em acesso livre no site : Plínio PRADO | Universite Paris-8, France - Academia.edu (https://univ-paris8.academia.edu/PlinioPRADO).   Um livro coletivo foi dedicado à sua concepção do “trabalho de Eros na relação de ensino” : De l’art d’enseigner. Essais sur le travail de Plínio Prado (Paris, 2018).

 

[Resumo]

Nesta entrevista à Assessoria de Comunicação da UNICAP, o professor da Paris 8 aborda a leitura que ele faz da obra de Proust, a sua questão central, o seu tema condutor e o seu desafio hoje :

“Quando a máxima de uma época como a nossa é “ganhar tempo”, acelerar, programar, saturar as memórias..., e que ninguém mais tem tempo para si, para cuidar de si (o que implica aceitar “perder” tempo) ; quando esquecemos ou ignoramos o tempo de si, o tempo da psiquê, da alma, quer dizer que é hora de ler Proust. É tempo de ler Em busca do tempo perdido.

Isso já é em si mesmo um ato de resistência. “Levar ao desespero todo tipo de homem apressado”, dizia Nietzsche: eis um belo projeto para o nosso tempo.”

Ele esboça também, de passagem, uma reflexão mais geral a respeito de diversos temas da atualidade e do mundo como ele anda: a crise da política e da história, e portanto do futuro; a insensibilidade geral produzida pela “civilização das mídias” e o mal-estar na condição amorosa; a questão recorrente do fim do mundo (guerras, crescimento exponencial dos miseráveis, o colapso ecológico anunciado, depressão coletiva).

Sobre a experiência do seu curso sobre Proust no Recife, ele destacou :

“Uma entrevista não poderia dar uma ideia, mesmo pálida, do momento de graça que foi o nosso encontro no Recife, em torno do romance de Proust, ao longo dessas cinco sessões em 2023.

Momento que só foi tornado possível pela disposição dos que estavam lá, a começar pela qualidade de escuta incomparável de que eles e elas fizeram prova. O que nos permitiu, ao curso de nossa leitura de Em busca do tempo perdido, fazer diretamente, na sala de aula, uma certa experiência do tempo : o tempo lento da leitura, da reflexão, da “vida latente da alma” - longe da aceleração geral, cotidiana, das telas e dos celulares.

Mas como evocar esse curso, essa experiência e, mais ainda, a obra proustiana aqui, numa entrevista ?”

“Se fosse preciso condensar numa palavra o que está em jogo em nosso trabalho, eu recorreria a este parágrafo do Tempo reencontrado, que traduzo aqui. Tratando do trabalho e da ascese do artista, ele traz ao mesmo tempo uma admirável definição da anamnese (a perlaboração freudiana, a Durcharbeitung, tão importante também para a filosofia), condição essencial da vida que buscamos :

Este trabalho do artista, de procurar discernir algo diferente sob a matéria, sob a experiência, sob as palavras, é exatamente o trabalho inverso daquele que, a cada minuto, quando nós vivemos afastados de nós mesmos, o amor-próprio, a paixão, a inteligência, e o hábito também realizam em nós, quando eles acumulam por cima de nossas verdadeiras impressões, para escondê-las inteiramente de nós, as terminologias, os objetivos práticos que nós chamamos falsamente de vida. 

Em suma, esta arte complicada é justamente a única arte viva.

Se ela exprime para os outros e nos faz nós mesmos ver a nossa própria vida, esta vida que não pode ser “observada”, cujas aparências que observamos precisam ser traduzidas e muitas vezes lidas de trás para frente e laboriosamente decifradas.

Este trabalho que o nosso amor-próprio, a nossa paixão, o nosso espírito de imitação, a nossa inteligência abstrata, os nossos hábitos haviam feito, é este trabalho que a arte irá desfazer, é a marcha em sentido contrário, a volta às profundezas onde o que realmente existiu jaz desconhecido de nós, que ela nos fará seguir.”

 

Confira os principais trechos da entrevista :

O despertar do interesse por Proust

Quem poderia dizer quando, como e porque, um interesse importante é despertado em nós, num momento determinado de nossa vida ?

Quem poderia dizer por que caminhos, explícitos ou secretos, acontece de fazermos um encontro com algo - um rosto, uma paisagem, um livro, uma música, um sabor, uma aula, um filme ?

Esse é um tema central do romance proustiano.

Eu quero dizer: encontro, no sentido mais forte do termo. Encontro inesperado e improvável, improgramável, que nos afeta “desproporcionalmente”, nos desestabiliza e pode nos deixar sem palavras, desarmados. E por isso mesmo, nos impele a investir nele (a nos “interessar”), a procurar entender, elaborar o que nos acontece, fiéis ao que advém.

O encontro é uma iniciação. Através dele nós podemos eventualmente nos tornar o que nós devemos ser, cientistas, amantes, artistas, ativistas...

A leitura da Recherche du temps perdu foi, sim, um encontro, para mim como para tantos outros e outras. E como todo encontro, uma história de amor (de investimento afetivo, apaixonado) e portanto de iniciação.

 

Quando era estudante em Paris, o livro de Gilles Deleuze, Proust et les signes (1964), produzia há mais de duas décadas os seus efeitos sobre a recepção da obra proustiana. À la recherche du temps perdu havia saído do círculo estreito de aristocratas e de especialistas, tinha se popularizado, editada em livro de bolso. A obra revelava doravante todo o seu alcance, que ia muito além, claro, da sucessão de intrigas entre snobs franceses fin de siècle : ela tratava da questão, universal, como alguém se torna o que ele deve ser, no caso : um escritor ? Ou ainda, em outras palavras, como a literatura é possível ? 

Por esse próprio viés, ela abordava o problema da insondável condição humana - a desdita de ser exposto à lei do tempo que condena tudo o que aparece a desaparecer, o suplício da infância refém dos adultos, o amor e a perda irremediável do ser amado, Sodoma, Gomorra e a “trans-sexualidade”, a experiência do sadismo, a felicidade impossível no mundo e os instantes imprevistos de revelação e êxtase... Ela tratava assim, inevitavelmente, do que faz que uma vida pode valer a pena de ser vivida.

Nós brincávamos, estudantes, dizendo por provocação que era possível dividir as pessoas em duas categorias: as que leram Proust e as que não o leram. As primeiras teriam um algo a mais, um sentido da nuance, um certo tato psicológico, um ouvido para as coisas não ditas mas carregadas de significação. Para elas “uma hora não é apenas uma hora, é um vaso pleno de perfumes, sons, projetos e climas” (O Tempo reencontrado). Elas podiam portanto viver mais, ter uma vida mais ampla, mais intensa, mais disponível também ao encontro.

Deixando de lado o que há de juvenil e de ingênuo na provocação, nós podemos dizer que havia nessa brincadeira ao menos uma intuição justa, embora vaga, relativa à obra literária, no caso o romance de Proust: é que há coisas que somente a literatura pode descobrir e nos ensinar, concernindo à vida (e portanto à morte), aos outros, a nós mesmos e nossa relação conosco, ao tempo e ao intemporal, ao mundo e à nossa humana e inumana condição.

E isso, especialmente porque a literatura acolhe a parte de escuridão em nós. Nos dois extremos da obra proustiana, ensaio e romance confundidos, nós encontraremos esta ideia: que os verdadeiros livros são filhos (enfants, crianças) da escuridão e do silêncio. Proust se retirará na solidão para escrever a Recherche, e só escreverá à noite.

Convém sublinhar, nestes tempos de fetiche da informação e de pedagogia da transmissão (o contrário da iniciação), que ensinar, aqui, não significa transmitir informações, saberes ou conteúdos já prontos, fixados, exteriores aos sujeitos.

A literatura não procede conceitualmente, e nem se dirige inicialmente à inteligência. “A cada dia eu atribuo menos valor à inteligência”, escrevia Proust no limiar da Recherche. Ele já afirmava aí o primado da “sensação” sobre a inteligência, e apresentava a memória involuntária como a via de acesso a um passado que no fundo não passa, e condição da descoberta e da elucidação da verdadeira vida, mediante o trabalho da escritura, da anamnese.

“Cada dia eu me dou mais conta que é só fora dela (a inteligência) que o escritor consegue apreender algo das nossas impressões passadas, ou seja, alcançar algo de si mesmo e a única matéria da arte.”

Se há ensino aqui - e há, pois a literatura é definida como “escola da vida” -, então ele é antes de tudo uma questão de estilo, de escritura, de partilha da sensibilidade, e não de teoria. Como a “voz” de um escritor, o seu tom singular, que precede e rege o sentido de suas frases (dizia Proust a propósito do pastiche).  

De modo que, assim como o belo, ou o sublime, a verdade tampouco se baseia na lógica. Ela resulta antes dessas “impressões” - esse inexprimível qualitativamente singular que cada um sentiu obscuramente em sua solidão -, que a escritura busca auscultar e “traduzir”, “do mundo do invisível para o mundo do concreto, onde o inefável se resolve em fórmulas claras”. Verdade e belo, pensamento e estilo, são indissociáveis.

Enfim, à diferença do gênero de discurso dito objetivo, o narrador está inteiramente implicado no que ele conta. Tanto mais quando o que ele conta (o mundo obscuro das tensões afetivas de sua vida interior) constitui a via tortuosa através da qual ele se torna narrador - o narrador do livro que nós estamos lendo.

E o que ele conta, a verdade que ele busca compartilhar narrativamente, implica também o leitor. Este é incitado a enveredar, por sua vez, na mesma descida do trabalho sobre si, clarificando ou transformando a sua maneira de decifrar o mundo e si mesmo.

Como se sabe o narrador da Recherche considerava o seu romance como uma lupa (e mais precisamente como um telescópio, voltado para o trabalho do espírito e o “livro interior dos signos desconhecidos”, longe do qual vivemos habitualmente). Lente de aumento, posta igualmente à disposição dos leitores, de modo que, nota o narrador, eles seriam menos os leitores do livro que, através do livro, “leitores de si mesmos”.  

Wittgenstein dizia que se alguém escrevesse um livro que fosse realmente um livro que desse conta do problema da significação última da vida, esse livro, como numa imensa explosão, aniquilaria todos os outros livros deste mundo. Se há uma biblioteca universal, é porque o Livro de todos os livros não foi escrito, nem pode sê-lo. Na verdade o projeto é tão desprovido de sentido quanto o desejo de ir para além da linguagem através da linguagem: “É absolutamente sem esperança bater assim a cabeça contra os muros da nossa jaula”, a jaula da linguagem. A questão de saber por que nós vivemos, ou para que nascemos, a o quê nós damos nossa vida, qual é a destinação do humano, resta o enigma primeiro e último de nossa condição, essencial e insolúvel.

No entanto nós sentimos que alguns livros vão mais longe ou mais fundo do que outros nessa busca impossível, insensata e inevitável. A Bíblia Hebraica, Homero, Sófocles, Agostinho, Dante, Shakespeare, Dostoievski... O velho Krapp os chamava ainda de opus magnum (Krapp’s Last Tape). À la recherche du temps perdu faz indiscutivelmente parte desse panteão.

 

Como surgiu o romance Em busca do tempo perdido

É uma questão frequente: a da origem da obra de arte (título de um célebre e importante ensaio de Heidegger). Querer compreender o engendramento da obra, apreender a sua gênese.

“Deplorável mania, assim que algo acontece, de querer saber o quê”, diz a voz no Inominável de Beckett. Mas é que n?s nos sentimos bem, estáveis, seguros, quando estamos cercados do que é inteligível, do que compreendemos, podemos nomear e controlar, do que nos é familiar, habitual, conhecido e reconhecido. Daí a angústia quando suspeitamos que no pr?prio coração do familiar mora eventualmente o estranho, um outro, desconhecido e inquietante. Paradoxo vertiginoso da “in-familiaridade” (Un-heimlichkeit) : quando o que nos é mais estrangeiro reside no seio de nossa intimidade e a ameaça, nos ameaça do interior. Como se proteger dele então ?

Por mais que multipliquemos as determinações de uma obra - históricas, sociais, culturais, psicológicas... -, por mais que nos esforcemos em contextualizá-la, cronologizá-la, em inscrevê-la numa “história da arte”, o seu surgimento resta irredutível, imprevisível, absolutamente enigmático, um event puro: ela é o que acontece quando esperava-se outra coisa.

Como a próxima frase... em Água viva de Clarice Lispector, o seu aparecimento resta inapreensível. Ninguém poderia prever, nem pode explicar a posteriori, porque Camões, Cervantes ou Shakespeare surgem no século XVI.

Os fatos não resolvem tudo. Há o enigma do mundo, no qual eles ocorrem, no espaço e no tempo, e se vão. A conclusão se impõe : o surgimento da obra, a sua origem, não está no tempo (cronológico, diacrônico). Ele excede o quadro do antes e depois. E aqui nós reencontramos o problema de Proust: o problema do extra-temporal. Que a obra promete e de onde ela provém.

Daí aliás o poder universal da obra de nos afetar, nos emocionar, assombrar para lá das épocas e dos continentes (a possibilidade de ler por exemplo, o que se chama ler, a Recherche du temps perdu no Recife, um século após a morte de Proust).

Contar o seu próprio engendramento, narrar como é possível poder vir a narrar, é o desafio, a proeza da Busca do tempo perdido, nós sabemos. Ela conta, através dos sete volumes, como Marcel, o herói, se torna escritor, o seu narrador. De modo que a Busca começa no fim: quando Marcel, enfim escritor, se prepara para escrever a... Busca do tempo perdido.

 Mesmo nos termos empíricos os mais rasteiros, seria impossível datar com precisão o momento em que em Proust, nas páginas dos cadernos, Marcel começa a narrar como ele se torna escritor.

Decerto poderíamos citar aqui um livro que anuncia e prepara a Recherche, mas é um livro entre aspas justamente, interrompido e publicado apenas postumamente, e por um bom motivo: no lugar dele, por assim dizer, Proust escreveu e publicou, correndo contra o tempo, isto é contra o fim, os sete volumes da Recherche du temps perdu (dos quais os três últimos apareceram apenas após a sua morte).  

Refiro-me ao Contre Sainte-Beuve, claro. Inicialmente, um conjunto de artigos de crítica literária dirigidos contra uma “grande figura da história da literatura francesa”, Charles Augustin Sainte-Beuve (1804-1869). Proust imagina, é certo, começar o seu livro por uma narração e não qualquer uma: a narração da “matinée da conversa com mamãe”, no curso da qual ele exporia à sua mãe (três anos após o falecimento de Jeanne Proust) a sua crítica de Sainte-Beuve - ou seja, por oposição, a sua própria teoria da literatura.

Livro entre aspas pois, estritamente falando, essa obra não existiu. O que nos foi legado é uma coleção de cadernos, numerados hoje pela Bibliothèque nationale, contendo esboços e fragmentos inacabados. Um projeto ou um sonho de livro, na verdade, que acabou dando lugar a outra coisa, à Recherche du temps perdu.

Resta que nesses cadernos abandonados, o trabalho (de parto) transmutando progressivamente o ensaio crítico no romance - sem que Proust se dê inicialmente conta disso, ou seja efetuado, nessa medida, literalmente no escuro -, esse trabalho pode ser acompanhado a posteriori através de suas múltiplas variantes, hesitações e metamorfoses. Em busca da Recherche.

Proust sabe muito bem o que é uma vida convocada pela obra que demanda a surgir, a ser escrita, a advir, uma vida ordenada a ela (inclusive inconscientemente) - demanda que a Recherche chamará, no final, de vocação. Ele só pode recusar categoricamente, portanto, o biografismo positivista de Sainte-Beuve, que defende o método de esclarecimento de uma obra pela vida de seu autor (método tão difundido hoje em dia aliás, nestes tempos de cientificismo, inclusive nos próprios círculos de estudos proustianos).

Como a obra literária poderia “refletir” de algum modo a vida do suposto autor, se não há vida, vida real, verdadeira, senão descoberta e elucidada pela obra?

E de novo a questão se coloca : se a obra é primeira, original, se ela surge contando a sua própria origem, de onde vem esse surgimento?

 

Através do caminho que vai do Contre Sainte-Beuve ao Tempo reencontrado, uma pista se indica de tempos em tempos entretanto. Ela enuncia: “Os verdadeiros livros devem ser filhos (enfants) não da luz do dia e da conversa, mas da escuridão e do silêncio”.

Notemos simplesmente, aqui, que as variantes desta frase giram em torno da tríade de que fala Freud no Infamiliar: solidão, obscuridade, silêncio (SOS, poderíamos glosar: três sinais de desamparo, de angústia). “De onde vem a inquietante familiaridade (Unheimlichkeit) do silêncio, da solidão e da escuridão ?” Eles são as “circunstâncias às quais se associa, para maioria dos humanos, uma angústia infantil, que nunca desaparece totalmente” (Das Unheimliche, 1919).

Impossível não pensar aqui na cena do “drama do deitar” de Marcel criança, que abre o primeiro volume da Recherche. Cena que banha na angústia em torno do beijo de mamãe, esse viático indispensável para a travessia infantil da noite, beijo que pode todavia sempre vir como não vir, ser dado ou ser recusado.

Nós temos aqui, ao mesmo tempo, a matriz da experiência amorosa, “da terrível necessidade de um ser” e do medo igualmente terrível de perder o amor desse ser.

Freud notava que a angústia é a maneira mais frequente através da qual o afeto inconsciente se assinala. O próprio romance proustiano elaborará a ideia de um “quantum de angústiaa priori, indeterminado, sem objeto, flutuante. Excesso originário do qual cada um, cada uma é refém a sua vida toda, e de onde viria a obra literária.

Segundo o dispositivo do corpo-psiquê, do “aparelho psíquico”, o afeto inconsciente é precisamente esse quantum de energia sem representação, sem forma, excluído no interior, sem inscrição no espaço e no tempo, numa palavra: extra-temporal. Como o tempo perdido, esse passado que não passa, ele permanece aí, insistente, atual, não distante mas próximo, prestes a retornar e se manifestar quando a ocasião de um encontro se apresentar. 

Do amor à Sodoma e Gomorra e à obra de arte

A partir Recherche rapidamente evocada, seria interessante indicar alguns de seus motivos centrais. Por exemplo :

-   O motivo das “intermitências do coração”. Manifestação eminente da lei do tempo,  da alteração das coisas e dos seres: tudo o que existe é passageiro, transitório, efêmero, destinado a perecer (lei intramundana, ignorando o extra-temporal).

            Devido às “intermitências”, “o calendário dos fatos não coincida com o dos sentimentos” (o narrador só cairá  em lágrimas provando a dor inconsolável da perda da avó - num instante súbito de revelação - um ano após o enterro dela). Elas ditam, em suma, as insondáveis vias e cronologias dos apegos e dos desapegos, do luto e da melancolia.

-   O motivo do amor, cuja aporia está no centro das “intermitências”. O amor não se encomenda: ele chega quando quer e desaparece quando menos se espera (o contrário do que é eterno). Ele é infinito somente enquanto dura (quem não se lembrará do Soneto da fidelidade?).

“O que acreditamos (ser) nosso amor, nosso ciúme, não é uma mesma paixão contínua e indivisível. Eles são constituídos por uma infinidade de amores sucessivos, de ciúmes diversos e que são efémeros...” O coração é intermitente por definição. O narrador da Recherche ama Albertine por intervalos, oscilando ciclicamente, paradoxalmente, entre ciúmes e tédio, desejo e enfado.

-  O motivo dos ciúmes. No ciclo incontrolável dos afetos que vão e vêm, sem nunca consultar quem eles afetam, o ciúme, como se sabe, tem um papel decisivo: ele é mais profundo do que o amor, e contém a verdade do amor.

Presente desde o início da Recherche, nos desgostos do amor por mamãe de Marcel criança, e do amor por Odette de monsieur Swann - desgostos comparáveis e comparados no romance -, o ciúme continuará a insistir até a última página da obra : “É porque eles contêm assim as horas do passado que os corpos humanos podem fazer tanto mal a quem os ama, porque eles contêm tantas recordações de alegrias e de desejos, já extintos para eles, mas tão cruéis para quem contempla e prolonga na ordem do tempo o corpo querido, do qual ele tem ciúmes...”

-  O motivo de Sodoma e Gomorra. O ciúme, que faz de quem ama e sofre um “pesquisador”, um expert em matéria de interpretação de signos, permite decifrar o que os signos do amor dissimulam através do que eles exprimem : no caso de Albertine, o mundo dos amores homossexuais de Gomorra. Há  uma relação fundamental entre ciúmes e homossexualidade. A verdade dos amores ditos intersexuais reside na homossexualidade.

Mais ainda: para além da homossexualidade, global e específica, há a ideia singular de “trans-sexualidade”, designando no indivíduo, para lá dele como um todo, a coexistência de fragmentos de diferentes sexos, de objetos parciais, de partículas elementares indicando que, molecularmente, somos todos trans-sexuais, capazes potencialmente de n... sexos. Ideia que vai bem além, em compreensão e em extensão, dos discursos habituais das minorias ativistas LGBTQIA+. (Daí a palavra de ordem da “revolução desejante”, se reclamando de Proust : a cada um seus sexos.)

O motivo da transformação do sofrimento em obra de arte: as páginas do Tempo reencontrado confiam à literatura a tarefa de se alimentar do sofrimento de amor, de aprender o que ele nos diz sobre n?s, de « trabalhá-lo » e de transformá-lo em arte. “As obras, como os poços artesianos, elevam-se tanto mais alto quanto mais profundamente o sofrimento cavou o coração”...

Mas o tempo (justamente) urge aqui, apressa e pressiona.

Esses motivos ficarão portanto em suspenso, na espera. “Sofrendo”, como se diz em francês de uma carta não entregue, ou não reclamada, que ela pode sofrer, ficar “en souffrance”, até o momento em que será recebida, livrada. 

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