Título Cabeçalho - Dar a Pensar

null Da pandemia humana à pandemia da Mãe-Terra

Publicado Por: Carlos Pinheiro Vieira

Por Marcelo Barros

A realidade atual do Brasil e do mundo já nos proporciona suficientes motivos de tristeza e preocupação. Não precisamos mais de sinais preocupantes que ainda nos angustiem mais em relação ao futuro. Qualquer pessoa minimamente informada e isenta sabe que a maioria das pessoas que negam a gravidade da pandemia e a responsabilidade do governo tentam, apenas, garantir interesses econômicos ou políticos. Alguns cientistas advertem sobre a possibilidade de novas pandemias, até mais cruéis.  

Em meio a todo esse caos, ouvimos alertas do governo em relação à crise hídrica e a que a diminuição trágica do volume de águas nas hidroelétricas do país provocará uma pane elétrica mais grave. A escassez de água já se manifesta em várias de nossas cidades e tivemos apagões no sistema elétrico do Amapá e de alguns estados do Norte e Nordeste.

Na quinta-feira, 17 de junho, ecoou no mundo inteiro um alerta vindo da ONU. Mami Mizutori, representante especial do secretário-geral na Estratégia Internacional das Nações Unidas para a Redução de Desastres (UNDRR, na sigla inglesa) alertou: “é iminente a ocorrência de uma grande seca que atingirá muitos países do mundo e esta seca pode tomar a proporção de uma verdadeira e próxima pandemia e para esta, não há vacinas que nos curem” (Público, Lisboa, sexta-feira, 18/ 06/ 2021, p. 22).

De acordo com o documento da ONU, este fenômeno será ocasionado pelas alterações climáticas que provocam diminuição de chuvas. Também para isso contribui a poluição dos rios provocada pelo elevado uso de fertilizantes tóxicos, os desmatamentos e uso irresponsável da água para a indústria do agronegócio.

Nos diversos continentes, os observatórios do clima já preveem um período longo e indefinido de estiagem que provocará escassez de água e maior insegurança alimentar. Essa seca afetará o mundo inteiro, se os países não tomarem medidas urgentes para combater as mudanças climáticas e cuidarem melhor da água e dos solos. Este relatório da ONU será assunto de debates e estudos na próxima conferência mundial sobre o clima que ocorrerá em novembro deste ano, em Glasgow (Cop 26).

Em todos os continentes, ao menos há mais de cinco mil anos, populações tradicionais têm convivido com secas e períodos de escassez. No entanto, agora, esse fenômeno de seca e escassez de água é, em grande parte, provocado por atividades humanas e pelas opções políticas de governos e das empresas que dominam a economia no mundo.  

Conforme o relatório da ONU, esta crise ecológica será intensa e mais prolongada. Pode durar décadas e vai alterar o clima e as condições de vida da Terra. Isso vai se refletir mais e mais em áreas de bacias hidrográficas, mas também em regiões longínquas das mesmas. Na América do Sul, as fumaças das queimadas na Amazônia são vistas em nuvens tóxicas que descem sobre o sul do Brasil e sobre o Paraguai, Uruguai e Argentina. A destruição do bioma do Cerrado em Goiás e Mato Grosso afeta o nível de água dos rios que desaguam no Plata e na bacia amazônica.

No mundo atual, conforme a ONU, mais de um bilhão de pessoas não tem acesso garantido à água potável necessária para a vida e a saúde. Não porque falta água, mas por distribuição injusta e por um sistema social que faz com que um norte-americano disponha, em média, de 44 litros de água potável por dia. Enquanto isso, a água disponível em média para um africano não chega a um litro.

Este comunicado da ONU vem nos dizer que esta pandemia da seca e da crise da água pode ocasionar uma tragédia para a humanidade mais grave até do que a Covid. Trará o agravamento da fome e da insegurança alimentar em vários continentes e ocasionará a volta de enfermidades endêmicas, que, em outros tempos, a humanidade já tinha parecido vencer.  

Para a pandemia do Covid, temos várias vacinas que funcionam e nos dão boa margem de segurança. Para esta pandemia anunciada pela ONU, provocada, não por fenômenos naturais, mas pelo sistema capitalista depredador, a única vacina segura será a conversão ecológica. O Papa Francisco a propõe em sua encíclica sobre o cuidado com a Casa Comum. A conversão ecológica supõe nos sentirmos todos os guardiães das florestas, da mãe Terra e das águas, assim como das comunidades originárias que, por suas culturas, já vivem permanentemente este cuidado.

Na cultura antiga do povo bíblico, dois séculos antes de Cristo, às margens do Mar Morto, surgia um grupo religioso que tentava renovar a consciência de unidade com Deus, com a Terra e uns com os outros. Em suas regras, os essênios deixaram escrito o seguinte ensinamento: “Em verdade, te digo:  Tu és um com tua Mãe Terra. Ela está em ti e tu estás nela. Dela tu nasceste, nela tu vives e para ela voltarás novamente. Olha para o sol, teu avô e louva quem o criou. Segue as leis da terra, pois teu alento é o alento dela. Teu sangue o sangue dela. Teus ossos são os mesmos seus.  Tua carne, a sua carne. Teus olhos e ouvidos são também os seus. Quem encontra a paz na sua mãe Terra nunca morrerá. Conhece esta paz na tua mente.  Deseja esta paz em teu coração. Realiza esta paz com o teu corpo” (Evangelho dos essênios)[1].


 

[1] - citado por REGINA FITTIPALDI, Cidades em Transição, em Sophia, ano 7, n. 28, p. 26.


Marcelo Barros

Marcelo Barros é monge beneditino e teólogo especializado em Bíblia. Atualmente, é coordenador latino-americano da Associação Ecumênica de Teólogos/as do Terceiro Mundo (ASETT). Assessora as comunidades eclesiais de base e movimentos sociais como o Movimento de Trabalhadores sem Terra (MST). Tem 45 livros publicados dos quais está no prelo: "O Evangelho e a Instituição", Ed. Paulus, 2014. Colabora com várias revistas teológicas do Brasil, como REB, Diálogo, Convergência e outras. Colabora com revistas internacionais de teologia, como Concilium e Voices e com revistas italianas como En diálogo e Missione Oggi. Escreve mensalmente para um jornal de Madrid (Alandar) e semanalmente para jornais brasileiros (O Popular de Goiânia e Jornal do Commercio de Recife, além de um jornal de Caracas (Correo del Orinoco) e de San Juan de Puerto Rico (Claridad).

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