A fé indígena no olhar de Chico José - Unicap

Título Notícias

A fé indígena no olhar de Chico José

Publicado Por: João Paes

Em encontro no PPGCR da Unicap, Francisco José emocionou professores, estudantes e convidados ao narrar experiências com povos originários, rituais, memória, espiritualidade e jornalismo vivido no coração da Amazônia.

Francisco José chegou ao Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Unicap trazendo na memória algumas das experiências mais marcantes do telejornalismo brasileiro. Com o tema “A espiritualidade e memória dos povos indígenas registrados pela TV”, o jornalista conduziu uma conversa que ultrapassou o campo da comunicação e tocou diretamente questões ligadas ao sagrado, ao respeito às culturas originárias e à responsabilidade de quem registra mundos tão diferentes do seu. O evento foi promovido pelo Grupo de Pesquisa Religiões, Identidades e Diálogos do PPGCR. 

Todos que puderam acompanhar o encontro saíram extasiados com as histórias, com a narrativa detalhada e com a forma como o comunicador nos fez enxergar a delicadeza e a importância que ele sempre teve com tudo que fez e ainda faz ao longo da carreira. Cada relato parecia abrir uma janela para a Amazônia, para os rios, para as aldeias, para os rituais e para a complexidade espiritual de povos que muitas vezes foram vistos pela televisão brasileira apenas como personagens distantes. No olhar dele, no entanto, esses povos apareceram como comunidades vivas, com fé, dor, força, medo, resistência e modos próprios de compreender o mundo.

Apresentado carinhosamente como Chico, Francisco José teve sua trajetória lembrada desde a infância. Nascido no Crato, no Ceará, mudou-se ainda criança para o Recife, cidade que adotou como casa afetiva e profissional. Chegou a estudar Direito na própria Universidade Católica de Pernambuco, mas a paixão pela comunicação falou mais alto. Começou no Jornal do Commercio, passou pela Globo Nordeste e construiu, ao longo de 46 anos na Rede Globo, uma carreira marcada por grandes coberturas, reportagens especiais e uma relação profunda com o Nordeste e com a Amazônia.

No currículo, estão seis Copas do Mundo, duas Olimpíadas, a cobertura da Guerra das Malvinas e uma longa atuação como repórter especial de rede. Mas foi no Globo Repórter, especialmente nas matérias sobre natureza, povos indígenas e grandes expedições, que Chico José consolidou uma marca própria. Ele não apenas narrava. Ele entrava no território, dormia em rede, atravessava rios, acompanhava rituais, enfrentava riscos e procurava entender, com respeito, as pessoas que encontrava pelo caminho.

Na Unicap, Chico contou que passou cerca de 20 anos registrando a Amazônia para a Globo. Nesse período, percorreu grandes rios, seguiu caminhos que muitas vezes só a água permite abrir e atravessou uma região onde a floresta não se entrega facilmente. Falou do Negro, do Tapajós, do Guaporé, do Solimões e da expedição até a nascente do Amazonas, nos Andes. Mas a força maior da palestra não esteve nos mapas, nas distâncias ou nos feitos de reportagem. Esteve no modo como essas viagens o colocaram diante de povos indígenas e de suas formas próprias de viver a espiritualidade.

Um dos pontos centrais da fala foi o contato com grupos isolados. Ao lembrar uma operação acompanhada pelo sertanista Sydney Possuelo, Chico levou o público para dentro de uma Amazônia de difícil acesso, onde a aproximação não se faz com pressa, nem com arrogância. Ali, a equipe encontrou uma grande maloca, uma comunidade inteira vivendo em outro ritmo, protegida pela floresta e pelos próprios códigos. A missão era localizar estrangeiros que haviam entrado na mata e desaparecido por semanas. A história abriu uma reflexão delicada sobre o encontro entre universos religiosos diferentes, sobretudo quando a presença de missionários, doenças e remédios podia alterar a vida de comunidades vulneráveis de maneira profunda e, muitas vezes, irreversível.

O encontro ganhou intensidade ainda maior quando ele passou a narrar a experiência com os Enawenê-Nawê, em Mato Grosso. Não era apenas uma reportagem. Era uma imersão em um povo para quem o ritual não é enfeite, nem encenação para olhos de fora. Durante meses, cantos, danças, pescarias e oferendas organizavam a vida coletiva. O tempo parecia obedecer a outra medida. A espiritualidade atravessava o corpo, o alimento, a água, a doença, a morte e a relação com os espíritos. Depois de exibir um trecho da reportagem, Chico resumiu o impacto daquelas imagens em uma frase simples e poderosa. “Deu para perceber a fé que eles têm quando estão fazendo os rituais deles.” Na memória do jornalista, aquela comunidade surgia como um dos exemplos mais fortes da profundidade espiritual dos povos indígenas no Brasil.

Foi nesse ambiente de rituais intensos que aconteceu uma das histórias mais emocionantes do encontro. Uma menina de 12 anos, filha do cacique, foi atingida na cabeça durante uma pescaria coletiva. Enquanto a criança permanecia em coma, os pajés cantavam ao redor dela, lançavam fumaça, insistiam no ritual e buscavam, com os recursos de sua própria cosmologia, chamar de volta a vida que parecia escapar. Para a equipe de televisão, aquele era um momento sagrado. Não cabia invadir. Não cabia transformar a dor de uma comunidade em espetáculo.

Chico observava de longe, mas também enxergava com os olhos de quem já tinha visto muito sofrimento. Percebeu que a menina precisava sair dali. O jornalista sabia que a fronteira entre registrar e interferir é uma das mais difíceis da profissão. Ainda assim, diante daquela criança, a regra já não bastava. Ele pediu que o intérprete falasse com o cacique. A mensagem era dura, mas necessária. Sem atendimento médico, a filha dele provavelmente morreria. A decisão atravessou silêncio, medo, desconfiança e lágrimas. Pouco depois, a menina foi autorizada a deixar a aldeia, acompanhada por familiares e por um pajé.

A história não terminou na saída pelo rio. No dia seguinte, quando a comunidade soube que a criança ainda não havia recebido o atendimento necessário, a tensão voltou a pesar sobre a aldeia. Chico, então, recorreu ao rádio da Funai e acionou contatos até chegar às autoridades de saúde em Mato Grosso. Não pediu apenas transporte. Insistiu para que um avião fosse enviado com neurologista a bordo. Ao lembrar a cobrança feita ao secretário de saúde, resumiu a dimensão humana daquele momento em uma frase que atravessou a palestra. “Ela não é uma índia, ela é um ser humano que está precisando de assistência.” A menina foi operada, sobreviveu e voltou à aldeia. A imagem que ficou para o final daquela reportagem não foi a da morte, mas a da vida retomando seu lugar, com a criança novamente entre os seus.

O desfecho mudou a relação entre Chico e a comunidade. Ao final da permanência, o cacique chamou o jornalista para perto da família e reconheceu o gesto que havia salvado sua filha. Em seguida, entregou-lhe um colar de cacique. Não era um objeto qualquer. Era um sinal de confiança, uma forma de dizer que aquele homem vindo de fora tinha deixado de ser apenas o branco com uma câmera. Naquele instante, a reportagem se transformou em vínculo. A narrativa emocionou o público e trouxe uma questão fundamental para o campo das Ciências da Religião. Como compreender o encontro entre uma prática ritual de cura, uma intervenção médica externa e a responsabilidade ética de quem testemunha uma situação limite?

A fala também passou pelos Waimiri-Atroari, apresentados por Chico como verdadeiros guerreiros da Amazônia. O relato trouxe a memória de um povo que enfrentou a violência do Estado, a abertura de estradas, a pressão de grandes obras e a tentativa constante de invasão de seu território. Na descrição do jornalista, não havia romantização. Havia respeito por uma comunidade que aprendeu a se defender, preservou sua língua, seus costumes e sua autonomia, e passou a usar o português apenas quando necessário para lidar com o mundo dos brancos.

Entre as histórias, Chico José lembrou a de um curumim ferido por picada de cobra e levado para atendimento médico fora da aldeia. Anos depois, o menino voltou à narrativa como liderança. O reencontro permitiu que a equipe registrasse um ritual de iniciação guerreira, marcado pela dor provocada por formigas e pela crença de que, naquele sofrimento, o jovem recebia também força, coragem e espírito de caçador. Mais uma vez, a espiritualidade aparecia ligada ao corpo e à resistência. Não como abstração, mas como aprendizagem, passagem e pertencimento.

Nessas narrativas, a espiritualidade indígena apareceu como algo inseparável da vida coletiva. Não surgiu como tema abstrato, nem como curiosidade exótica. Surgiu ligada à pesca, à doença, à cura, à morte, ao território, à infância, à guerra, à memória e à resistência. Chico mostrou que, para aqueles povos, os rituais não são cenas isoladas para a câmera. São formas de sustentar o mundo, de enfrentar ameaças, de explicar perdas, de pedir proteção e de manter viva uma relação ancestral com forças invisíveis.

Durante o debate, professores e estudantes destacaram a força humana da palestra. Uma das falas chamou atenção para a maneira como a narrativa criava imagens mesmo antes de qualquer vídeo. Outra observou que os relatos permitiam pensar a espiritualidade não apenas nos rituais indígenas, mas também no gesto de cuidado, na coragem de intervir diante do sofrimento e na busca de sentido que acompanha a experiência humana diante da vida e da morte.

Chico respondeu com a simplicidade de quem sempre fez da própria origem uma assinatura. Lembrou que enfrentou preconceito por causa do sotaque, que foi pressionado a mudar a maneira de falar e que nunca aceitou abandonar sua identidade sertaneja. Sua trajetória, nesse sentido, também se tornou parte da lição oferecida aos mestrandos, doutorandos e professores que acompanharam o evento. A voz que narrou a Amazônia para o Brasil não precisou se apagar para caber na televisão. Ao contrário, foi justamente sua forma própria de falar, olhar e contar que deu singularidade ao seu jornalismo.

Ao final, o encontro deixou uma impressão forte. A palestra de Francisco José foi uma aula sobre jornalismo, mas também sobre escuta. Uma escuta capaz de reconhecer que os povos indígenas não podem ser reduzidos a cenário, personagem ou curiosidade. São comunidades com espiritualidades complexas, histórias feridas, vínculos profundos com a terra e formas próprias de compreender o mistério da existência.

Na tarde da Unicap, Chico José mostrou que a televisão, quando se aproxima da vida com respeito, pode guardar muito mais do que imagens. Pode preservar memórias de fé, rituais, resistência e dignidade. E foi justamente essa delicadeza, presente em tudo que ele contou, que fez do encontro uma experiência tão marcante para quem teve a oportunidade de acompanhar uma tarde que foi uma verdadeira aula. Com verdade, memória e respeito.

Visualizações:
49
Compartilhar:

Aplicações Aninhadas

Expediente - Coluna 1

EXPEDIENTE

EDIÇÃO:
Paula Losada (1.652 DRT/PE)
Daniel França (3.120 DRT/PE)
Elano Lorenzato (2.781 DRT/PE)
Sílvio Araújo (4.012  DRT/PE)

Expediente - Coluna 2

REPÓRTER CINEMATOGRÁFICO:
Alex Costa (5.182 -DRT/PE)

DESIGNER:
Java Araújo

WEB DESIGNER:
Elano Lorenzato (2.781 DRT/PE)

Expediente - Coluna 3

CONTATO:
Rua do Príncipe, 526,
Bloco R, sala 117,
Boa Vista, Recife-PE.
Cep: 50050-900.
Telefone: (81) 2119.4010.
E-mail: assecom@unicap.br

Título Notícias Acontece na Unicap

Publicador de Conteúdos e Mídias

Captura de Tela 2026-06-03 às 09.11.07 (1).png

A fé indígena no olhar de Chico José

Em encontro no PPGCR da Unicap, Francisco José emocionou professores, estudantes e convidados ao narrar experiências com povos originários, rituais, memória,...

Em encontro no PPGCR da Unicap, Francisco José emocionou professores, estudantes e convidados ao narrar experiências...

20260601_103152.jpg

Unicap promove o encontro "A Virgem das Três Raças: Guadalupe, Luján e Aparecida"

A Universidade Católica de Pernambuco recebeu, nesta segunda-feira (1º/06), um grupo de peregrinos argentinos que percorreu o caminho histórico realizado...

A Universidade Católica de Pernambuco recebeu, nesta segunda-feira (1º/06), um grupo de peregrinos argentinos que...

Thumbnail Vlog Viagem Duas Fotos Texto Preto e Branco com Sombra - Miniatura do Youtube.png

Resultado Preliminar do PROUNI Recife já está disponível para consulta

O Resultado Preliminar do PROUNI Recife já está disponível para consulta! Se você participou do processo, confira agora sua situação e acompanhe as próximas...

O Resultado Preliminar do PROUNI Recife já está disponível para consulta! Se você participou do processo, confira...

Agende-se Portal Unicap (9).png

Resultado Preliminar do PROUNI Recife

O Resultado Preliminar do PROUNI Recife já está disponível para consulta! Se você participou do processo, confira agora sua situação e acompanhe as próximas...

O Resultado Preliminar do PROUNI Recife já está disponível para consulta! Se você participou do processo, confira...