Unicap debate natureza e espiritualidade - Unicap

Título Notícias

Unicap debate natureza e espiritualidade

Publicado Por: JOÃO PAES

 

Mesa da XIII Semana Socioambiental reuniu pesquisadores, lideranças religiosas e representantes de povos originários em uma reflexão sobre direitos da natureza, diversidade e o papel do sagrado diante da crise ambiental

A relação entre natureza, espiritualidade e sociedade esteve no centro da quarta mesa da XIII Semana Socioambiental da Universidade Católica de Pernambuco, que reuniu diferentes tradições, experiências e formas de compreender o sagrado.

Realizado no Auditório Dom Helder Câmara, o encontro colocou lado a lado o monge e teólogo Marcelo Barros, o professor Luca Pacheco, a liderança indígena Naiara Tukano, Mãe Ceiça, o pastor e pesquisador Josias Vieira Kaeté e o mediador Paulo Sampaio. A proposta foi discutir como religião, espiritualidade, educação e direitos da natureza podem contribuir para rever a forma como o ser humano se relaciona com o meio ambiente.

Na abertura, o professor Luiz Felipe Lacerda destacou que parte dos problemas ambientais enfrentados atualmente está ligada ao processo histórico de “dessacralização da natureza”. Para ele, o desafio está em construir relações mais justas entre humanos e não humanos.

O sagrado para além dos templos

Marcelo Barros abriu as exposições questionando a própria ideia ocidental de religião e a separação entre sagrado e profano. Para o teólogo, tradições indígenas e afrodescendentes oferecem outra compreensão, na qual o sagrado não precisa estar restrito a lugares, objetos ou pessoas consagradas.

“O sagrado é o mistério ou segredo que há por detrás de tudo que existe”, afirmou. A partir dessa visão, explicou, a relação com animais, rios, florestas e outros seres deixa de ser uma relação com objetos e passa a envolver respeito, cuidado e reconhecimento de uma existência própria.

Marcelo defendeu ainda a superação das fronteiras rígidas entre aquilo que é considerado santo e o que é tratado como mundano. “O sagrado está em tudo”, sintetizou.

Professor do Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião da Unicap, Luca Pacheco levou a discussão para o campo da educação e da compreensão interdisciplinar da questão ambiental. Ele destacou que dimensões físicas, biológicas, econômicas, políticas e culturais não podem ser pensadas isoladamente.

“Nós não estamos apenas na Terra, mas nós pertencemos à Terra e somos parte dela”, afirmou. Para o professor, cuidar do planeta não deve ser entendido como uma pauta externa ao ser humano, mas como uma forma de cuidar da própria existência.

Luca também apresentou o projeto do Ecoparque das Religiões, pensado para uma área verde do Convento de São Francisco, em Olinda. A proposta prevê um espaço de diálogo intercultural e inter-religioso associado à defesa da chamada “casa comum”, reunindo natureza, espiritualidade, educação e diferentes tradições religiosas.

Ancestralidade, cuidado e outras formas de vida

Partindo da cosmovisão indígena, Naiara Tukano apresentou uma compreensão do mundo na qual rios, animais, plantas, montanhas, ancestrais e seres espirituais integram uma mesma realidade.

“A nossa vida sozinha não existe vida. A nossa vida só existe porque existem diversas outras vidas”, afirmou, citando peixes, plantas, abelhas, rios e montanhas.

Naiara também criticou modelos de desenvolvimento baseados na acumulação e na exploração ilimitada. Em sua fala, contrapôs essa lógica aos ciclos naturais. “A vida não é acumular, acumular, acumular, extrair, extrair, extrair, lucro, lucro, lucro. A vida é cíclica”, disse.

Para ela, a responsabilidade com o presente e com as próximas gerações passa ainda pela valorização de conhecimentos mantidos por povos indígenas e comunidades tradicionais.

Mãe Ceiça levou ao debate a experiência das religiões de matriz afro-indígena e colocou no centro da discussão o papel da ancestralidade, da identidade e da educação. Em sua intervenção, relacionou racismo, apagamento cultural e destruição ambiental, defendendo que mudanças profundas dependem também do reconhecimento da própria história.

Ela criticou a ideia de que terra, água e outros elementos naturais possam ser reduzidos a mercadorias. “A terra é de todo mundo. A terra é mulher de ninguém. É de quem dela cuidar”, afirmou em um dos momentos mais enfáticos da noite.

A educação apareceu em sua fala como um caminho para enfrentar preconceitos e reconstruir referências históricas, culturais e religiosas. Para Mãe Ceiça, diplomas e títulos acadêmicos, isoladamente, não produzem transformação se não houver mudança na forma de olhar o outro e respeitar diferentes culturas e crenças.

Espiritualidade, educação e prática

O pastor e pesquisador Josias Vieira Kaeté levou para a mesa a perspectiva da ecoteologia e de uma espiritualidade cristã ligada à defesa da criação.

“Espiritualidade é muito mais o que está no chão da vida real”, afirmou. Para ele, a experiência espiritual se manifesta no cotidiano e pode ser compreendida como a materialização das crenças e dos valores assumidos por cada pessoa.

Ao recuperar o relato bíblico de Moisés diante da sarça ardente, Josias propôs outra leitura da frase “a terra que você pisa é santa”. Segundo ele, retirar as sandálias simboliza retirar aquilo que impede o ser humano de se reconhecer como parte da criação.

“Tirar as sandálias dos meus pés significa tirar tudo aquilo que me impede de ser um com a criação”, disse.

Depois das exposições, o público levou a conversa para questões práticas. Entre os temas levantados estavam as formas de fazer com que essas reflexões ultrapassem os espaços acadêmicos, o papel político das religiões, as contradições dentro das próprias instituições religiosas e a possibilidade de utilizar práticas espirituais na educação para os direitos da natureza.

Uma das participantes sugeriu que experiências religiosas e espirituais podem funcionar como caminhos para reaprender a escutar, tocar e se relacionar com o ambiente.

A educação voltou ao centro da discussão no encerramento. Luca Pacheco defendeu a universidade e a escola como espaços importantes para transformar percepções e estimular novas práticas socioambientais, sobretudo entre as novas gerações.

Para ele, essa compreensão não pode ser transmitida apenas por argumentos. “Isso é algo que precisa ser vivenciado, experimentado em ato, na vida”, afirmou.

Depois de mais de duas horas de debate, Mãe Ceiça conduziu o encerramento com palavras sobre respeito, natureza e diversidade religiosa, seguidas de um cântico. As diferentes perspectivas apresentadas durante a noite convergiram na defesa do cuidado, da diversidade e do reconhecimento de que a vida humana depende de muitas outras formas de existência. O encontro reforçou ainda o papel da educação, da ancestralidade e das práticas espirituais na construção de uma relação mais responsável com a natureza.

Visualizações:
14
Compartilhar:

Aplicações Aninhadas

Expediente - Coluna 1

EXPEDIENTE

EDIÇÃO:
Paula Losada (1.652 DRT/PE)
Daniel França (3.120 DRT/PE)
Elano Lorenzato (2.781 DRT/PE)

Expediente - Coluna 2

REPÓRTER CINEMATOGRÁFICO:
Alex Costa (5.182 -DRT/PE)

DESIGNER:
Java Araújo

WEB DESIGNER:
Elano Lorenzato (2.781 DRT/PE)

Expediente - Coluna 3

CONTATO:
Rua do Príncipe, 526,
Bloco R, sala 117,
Boa Vista, Recife-PE.
Cep: 50050-900.
Telefone: (81) 2119.4010.
E-mail: assecom@unicap.br

Título Notícias Acontece na Unicap

Publicador de Conteúdos e Mídias

evento unicap.jpeg

Unicap debate natureza e espiritualidade

Mesa da XIII Semana Socioambiental reuniu pesquisadores, lideranças religiosas e representantes de povos originários em uma reflexão sobre direitos da...

Mesa da XIII Semana Socioambiental reuniu pesquisadores, lideranças religiosas e representantes de povos originários...

darapensar-set2026-texto-2.gif

AINDA PRECISAMOS FALAR DE SETEMBRO AMARELO?

Por Janaíne Gonçalves                            ...

Por Janaíne Gonçalves                ...

IMG_1930.jpg

Unicap sedia encontro nacional inédito sobre Direitos da Natureza, Direitos Humanos e Justiça...

Durante quatro dias, a Universidade Católica de Pernambuco promove um seminário nacional inédito sobre Direitos da Natureza, reunindo pesquisadores,...

Durante quatro dias, a Universidade Católica de Pernambuco promove um seminário nacional inédito sobre Direitos da...

WhatsApp Image 2026-09-14 at 07.28.13.jpeg

PPGPSI - Seminário da Linha de Pesquisa em Ciberpsicologia e Humanidades Digitais

Nos dias 17 e 18 de setembro, a Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) receberá o Prof. Dr. Marck de Souza Torres, da Universidade Federal do Amazonas...

Nos dias 17 e 18 de setembro, a Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP) receberá o Prof. Dr. Marck de Souza...