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Fazer a paz num mundo de guerra

Publicado Por: Karoline Menezes

Por mais que muita gente fale de paz, suplique a paz, deseje a paz e trabalhe pela paz, todos sabemos que a paz é algo muito difícil e desafiador. Não é preciso fazer muito esforço para reconhecer que vivemos num mundo em guerra: guerra na relação entre pessoas e grupos, guerra nas redes sociais digitais, guerra entre igrejas e religiões, guerra entre grupos políticos, guerra entre países. Guerra é um modo de relação que transforma o outro em inimigo a ser eliminado a qualquer preço. Pode se dar nas relações cotidianas, no mundo da política e na relação entre países e povos. E pode se transformar em cultura: modo de pensar e agir, objetivo a ser perseguido, meios de atuação.

            A “cultura de guerra” (confronto e eliminação do inimigo) vem ganhando força e se impondo nos conflitos entre países e povos. Atualmente, há dezenas de conflitos armados no mundo. A guerra da Rússia com a Ucrânia, o genocídio do povo palestino pelo governo de Israel e, mais recentemente, o atentado dos EUA à Venezuela e o sequestro de seu presidente são apenas os exemplos mais divulgados e conhecidos do que Francisco chamou de “terceira guerra mundial aos pedaços”. Em sua mensagem para o Dia Mundial da Paz, Leão XIV denunciou que, “ao longo de 2024, as despesas militares a nível mundial aumentaram 9,4% em relação ao ano anterior, confirmando a tendência ininterrupta dos últimos dez anos e atingindo o valor de 2,72 trilhões de dólares, ou seja, 2,5% do PIB mundial”. E isso tende a aumentar com a destruição das mediações políticas de enfrentamento dos conflitos (força da política) e o aumento e uso das armas como meio para alcançar seus objetivos e impor seus interesses (política da força).

            Essa “cultura de guerra” tem ganhado muita força no mundo da política, sobretudo com o crescimento da extrema direita e sua estratégia de demonização da política, ataque às instituições políticas, polarização da sociedade, manipulação da religião, difamação dos inimigos, retórica do ódio, difusão de fake news e tentativas de golpe de Estado. Conhecemos bem tudo isso no Brasil. Os ataques golpistas de 08 de janeiro de 2023 e as articulações políticas para proteger seus crimes (PEC da bandidagem, anistia/dosimetria para golpistas, proteção de parlamentares criminosos) mostram até onde eles são capazes de ir com seu projeto de poder. A política deixa de ser um espaço de debate e disputa de projetos e caminhos para a sociedade para se transformar num palco de guerra, onde o que importa é vencer e eliminar o adversário e onde se pode usar todos os meios que ajudem a alcançar esse objetivo (mentira, difamação, agressão, golpe etc.). A crítica, o diálogo e a negociação são substituídos por agressão, difamação, ataque e golpe.

            E essa mesma “lógica de guerra” vem se impondo também nas relações entre pessoas e grupos: família, vizinhos, escola, trabalho, namorados, redes sociais etc. Basta pensar na dificuldade que temos em lidar com tensões e conflitos e no grau de intolerância e agressividade verbal e até física nas relações cotidianas. Com muita facilidade transformamos quem pensa e age diferente da gente em adversários e inimigos a serem eliminados. Para impor nossos interesses podemos apelar para qualquer meio. Tudo vale: calúnia, difamação, mentira, agressão verbal e até física. Isso se manifesta nos conflitos, agressões, inimizades e cancelamentos por causa de posições e opções políticas – até entre familiares e amigos. Isso se manifesta de modo ainda mais trágico nos índices de feminicídios e em sua justificativa mais comum: “se não é minha não será de ninguém”. E explica, em boa medida, o apoio de amplos setores da sociedade e das Igrejas a agressão a adversários, à violência policial, a linchamentos, a chacinas, a guerras.

            Daí a dificuldade e o desafio da paz no mundo. Ela se constrói no dia a dia: em gestos de ternura e delicadeza, em relações de respeito e diálogo, em linguagem não violenta a agressiva, na defesa da dignidade e dos direitos de todas as pessoas. Ela se constrói nas igrejas e religiões: na vivência da fraternidade, no respeito à fé de cada pessoa e comunidade, na recusa de toda forma de preconceito e violência, no anúncio da fraternidade, da justiça e da paz. Ela se constrói na política: na busca do bem comum, na garantia dos direitos dos pobres e marginalizados, no diálogo, na defesa da democracia, na mediação política dos conflitos, na defesa da soberania dos povos.

            Não é fácil viver em paz e construir a paz. Mas não podemos nos render à lógica mortal da guerra. Nem por humanidade nem muito menos por fé religiosa. Quem crer no Deus da paz deve bucar a paz, deve construir da paz, deve lutar pela paz.

Que Deus nos dê a sua paz!

Que Deus faça de nós agricultores e artesões da paz: Plantar a paz! Fazer a paz!

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