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Crer e deixar crer

Publicado Por: JOÃO PAES

Guerras, perseguições e ataques a comunidades religiosas mostram que a fé continua sendo usada como fronteira entre quem pertence e quem deve ser tratado como inimigo. Em diferentes partes do mundo, pessoas são perseguidas pelo modo como rezam, pelo nome que dão a Deus ou pela tradição religiosa que seguem. No Brasil, essa violência assume uma forma bastante conhecida. Ela aparece no racismo religioso, na destruição de terreiros, na hostilidade contra símbolos sagrados e na tentativa de deslegitimar principalmente as religiões de matriz africana.

Foi nesse cenário que a palestra de encerramento do Congresso Internacional da Soter, apresentada pelo professor Romero Bittencourt e Carvalho, colocou no centro do debate dois conceitos ligados às tradições hindus. O primeiro foi o dharma, associado ao dever e à ordem que orienta a vida. O segundo foi ahimsa, princípio da não violência que ultrapassa a simples recusa da agressão física e propõe uma relação ética com todos os seres.

Durante a exposição, Romero apresentou o hinduísmo como um universo religioso marcado pela diversidade. Em vez de uma tradição uniforme, existem escolas, correntes filosóficas, interpretações e caminhos espirituais distintos. As divergências podem ser profundas, inclusive sobre a natureza do divino, a realidade do mundo e as formas de alcançar a libertação. O destaque dado pelo pesquisador foi para a possibilidade de essas diferenças serem enfrentadas por meio da interpretação, da argumentação e da disputa de ideias, sem que a existência de uma corrente dependa necessariamente da eliminação das demais.

A reflexão dialoga diretamente com um dos principais desafios do mundo contemporâneo. A diferença religiosa, por si só, não produz violência. O problema começa quando uma pessoa ou um grupo acredita que sua crença lhe concede o direito de controlar a consciência alheia, impor conversões, silenciar outras tradições ou definir quais experiências religiosas merecem existir. Nesse ponto, a convicção deixa de orientar a própria vida e passa a ser usada como autorização para agredir.

A palestra também lançou um alerta para a facilidade com que se condenam conflitos religiosos ocorridos em outros países enquanto se ignora a intolerância presente no cotidiano brasileiro. Quando um terreiro é destruído, uma criança é hostilizada por usar roupas ou símbolos de sua religião ou uma tradição inteira é classificada como demoníaca, não se trata apenas de divergência teológica. Trata-se de racismo, discriminação e violência social.

O princípio de ahimsa não oferece uma solução automática para guerras e conflitos religiosos. Ele aponta, porém, uma direção ética capaz de questionar qualquer fé que precise humilhar outra para se afirmar. A não violência exige mais do que tolerar a existência de quem pensa diferente. Ela pressupõe reconhecer que ninguém deve ser perseguido, diminuído ou excluído por causa de sua crença ou de sua ausência de crença.

A mensagem que ficou ao final da palestra é simples e urgente. Ninguém precisa abandonar sua religião, doutrina ou visão de mundo para conviver com a diferença. O que precisa ser abandonado é o desejo de controlar a fé do outro. Em uma sociedade marcada pelo pluralismo, respeitar diferentes crenças deixou de ser apenas um gesto de boa vontade. Tornou-se uma condição básica para que todos possam viver com dignidade.

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