30ª Semana Teológica da Unicap debate os 350 anos da Arquidiocese de Olinda e Recife - Unicap
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30ª Semana Teológica da Unicap debate os 350 anos da Arquidiocese de Olinda e Recife
O auditório G2 da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap) ficou lotado na tarde desta terça-feira (25) para a abertura da 30ª Semana Teológica da Universidade. Com o tema “350 anos da Arquidiocese de Olinda e Recife”, o evento reúne a comunidade acadêmica, representantes do clero, religiosos, agentes de pastoral e estudiosos da Teologia para refletir sobre a trajetória histórica da Igreja local e os caminhos que se apresentam para o futuro.
Na abertura, o Reitor da Unicap, Padre Carlos Fritzen, destacou a importância de celebrar os 350 anos da criação da Diocese de Olinda, em 1676, não apenas como uma oportunidade de rememorar o passado, mas como um convite à renovação da missão da Igreja. Em seu discurso, ele sintetizou a proposta da Semana Teológica em três palavras: fé, história e missão.
Ao relacionar a celebração dos 350 anos com os desafios contemporâneos, Padre Fritzen recorreu às perspectivas dos papas Francisco e Leão XIV. Segundo ele, a Igreja é chamada a estar “em saída”, levando esperança aos desafios concretos do tempo presente, ao mesmo tempo em que assume o compromisso com o cuidado da Casa Comum. Nesse contexto, ressaltou também o papel de uma universidade católica na formação não apenas de profissionais, mas de pessoas comprometidas com a dignidade humana, a justiça social e o bem comum.
Uma história marcada por diferentes formas de compreender a Igreja
A conferência de abertura foi conduzida pelo Arcebispo de Olinda e Recife, Dom Paulo Jackson, que propôs uma leitura histórica dos 350 anos da Arquidiocese a partir de diferentes modelos de Igreja que marcaram sua trajetória.
Dom Paulo lembrou que a Diocese de Olinda foi criada em 16 de novembro de 1676, dentro de um contexto em que a Diocese de São Salvador, criada em 1551, abrangia todo o território que viria a constituir o Brasil. A criação de novas dioceses estava relacionada tanto à estratégia política da Coroa portuguesa quanto ao processo de evangelização e organização da Igreja nas terras coloniais.
Ao reconstruir esse contexto, o Arcebispo chamou atenção para o entrelaçamento entre religião, poder político e interesses econômicos durante o período colonial. A missão evangelizadora estava associada à ideia de que Portugal possuía uma missão concedida por Deus de levar o cristianismo a outros povos, ao mesmo tempo em que a colonização buscava a posse das terras e a produção de riquezas para a Coroa.
Dom Paulo também destacou a trajetória de Olinda e sua transformação ao longo dos séculos. A cidade, que havia se tornado um importante centro colonial, sofreu com as invasões holandesas e com o deslocamento progressivo do poder político e econômico para Recife. Após a expulsão dos holandeses, em 1654, igrejas e conventos precisaram ser reconstruídos, processo que contou com a atuação de franciscanos, carmelitas e beneditinos. Cerca de duas décadas depois, estavam reunidas as condições para a criação da Diocese de Olinda.
No período do Padroado, explicou Dom Paulo, a Igreja estava profundamente vinculada à Coroa portuguesa. A eclesiologia daquele momento era marcada pela concepção de uma Igreja como “sociedade perfeita”, associada à aliança entre trono e altar. Embora o sistema tenha garantido recursos para a evangelização, a construção de igrejas, conventos e hospitais e a presença de sacerdotes em territórios distantes, também provocou uma forte dependência da Igreja em relação aos interesses políticos e econômicos da Coroa.
De Dom Vital ao Vaticano II
O segundo momento analisado foi o processo de Romanização, que marcou a passagem de uma Igreja submetida à autoridade do rei para uma instituição mais diretamente vinculada ao Papa e à Cúria Romana. Dom Paulo relacionou esse período à atuação de Dom Vital, especialmente durante a chamada Questão Religiosa, no século XIX, quando o bispo de Olinda entrou em conflito com o governo imperial ao aplicar determinações do Papa Pio IX.
A Romanização trouxe maior autonomia da Igreja diante do Estado, além de investimentos na formação do clero, na unidade doutrinária e na organização das dioceses e paróquias. Por outro lado, também promoveu uma postura mais rígida em relação às manifestações da religiosidade popular e às transformações da sociedade moderna.
Já o Concílio Vaticano II (1962-1965) representou uma mudança significativa na compreensão da Igreja. Dom Paulo destacou a abertura ao diálogo com o mundo moderno, com a cultura, a ciência e outras tradições religiosas, além da valorização da Palavra de Deus e da participação dos leigos. A Igreja passou a ser compreendida, especialmente a partir da Lumen Gentium, como Povo de Deus, comunidade de todos os batizados e batizadas, chamada à santidade e à missão.
Nesse contexto, ganhou destaque a atuação de Dom Helder Câmara, um dos bispos brasileiros que participaram ativamente do Concílio. Para Dom Paulo, entre as contribuições mais importantes do Vaticano II estão o protagonismo dos leigos, a colegialidade episcopal, a aproximação com trabalhadores e intelectuais, o diálogo ecumênico e inter-religioso e a reforma litúrgica.
O Arcebispo também abordou o Sínodo Extraordinário dos Bispos de 1985, convocado para avaliar a recepção do Vaticano II duas décadas após seu encerramento. Um dos resultados mais importantes foi a valorização da comunhão como categoria teológica para compreender a Igreja. A perspectiva não abandonava a noção de Povo de Deus, mas a inseria na compreensão da Igreja como mistério e sacramento de comunhão, fundamentada na Trindade.
Francisco: misericórdia, missão e sinodalidade
Ao chegar ao período contemporâneo, Dom Paulo dedicou atenção especial à eclesiologia do Papa Francisco, que classificou como uma retomada criativa do Concílio Vaticano II. A Evangelii Gaudium aparece como uma referência fundamental desse pensamento.
Entre os principais elementos destacados estão a misericórdia, a atenção aos pobres e às periferias geográficas e existenciais, o anúncio do Evangelho e o ardor missionário, o cuidado com a criação e a sinodalidade.
A partir dessa perspectiva, a Igreja deve ser compreendida como uma comunidade acolhedora e samaritana, capaz de sair ao encontro das pessoas e responder às feridas do mundo. Para Dom Paulo, Francisco reforça a necessidade de uma renovação eclesial que nasça do encontro pessoal com Jesus Cristo e se traduza em uma Igreja permanentemente missionária.
A sinodalidade aparece como uma consequência desse processo: uma Igreja que caminha pela escuta, pelo diálogo e pelo discernimento no Espírito, fortalecendo comunhão, participação e missão.
Leão XIV e os desafios do presente
Sobre o Papa Leão XIV, Dom Paulo ponderou que ainda é cedo para formular uma interpretação definitiva de sua eclesiologia. Mesmo assim, apontou elementos presentes em seu lema e em seu brasão que permitem identificar algumas características.
O primeiro deles é a comunhão centrada em Cristo, expressa pelo lema In Illo Uno Unum — “Naquele que é o Uno, nós somos Um”. Nessa perspectiva, a unidade da Igreja não é apenas uma reunião sociológica, mas nasce da ação do Espírito Santo, que conduz os cristãos à unidade em Cristo.
Uma Igreja que olha para o futuro
Na conclusão da conferência, Dom Paulo Jackson defendeu que os diferentes momentos históricos não devem ser simplesmente descartados ou aceitos em bloco. Elementos de períodos anteriores permanecem presentes na vida da Igreja e podem ser reinterpretados à luz dos desafios atuais.
Para ele, a Igreja do futuro deve saber preservar aquilo que permanece válido na tradição — como o cuidado com o patrimônio histórico e cultural, a formação do clero e a presença missionária —, ao mesmo tempo em que assume novos compromissos: autonomia diante dos poderes públicos, protagonismo dos leigos, valorização dos ministérios, colegialidade episcopal, diálogo com as culturas e outras tradições religiosas e atenção às questões sociais.
Ao encerrar sua fala, Dom Paulo apresentou esse desafio como uma continuidade entre memória e futuro: reconhecer a história dos 350 anos da Arquidiocese de Olinda e Recife não significa apenas olhar para o que passou, mas discernir, a partir dessa trajetória, que Igreja se deseja construir para os próximos anos.
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