Cambinda Brasileira e 100 anos de história, fé e resistência - Unicap
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Cambinda Brasileira e 100 anos de história, fé e resistência
Muito além das cores, das fantasias e da festa que toma conta das ruas durante o Carnaval, o maracatu de baque solto carrega histórias de resistência, religiosidade e ancestralidade. Esse universo foi apresentado pelo jornalista, fotógrafo e pesquisador Heudes Régis, durante seminário promovido pelo Grupo de Pesquisa Religiões, Identidades e Diálogos, do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião (PPGCR) da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap).
No encontro, Heudes compartilhou os resultados de uma pesquisa desenvolvida ao longo de quatro anos sobre o Cambinda Brasileira, considerado o mais antigo maracatu de baque solto em atividade ininterrupta no país. O trabalho também deu origem ao livro Festa no Terreiro Mágico: 100 anos do Cambinda Brasileira, realizado em parceria com a jornalista e pesquisadora Adriana Guarda, com financiamento do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura).
A publicação reúne fotografias, relatos e histórias de personagens que ajudaram a construir a trajetória centenária do maracatu. Mais do que documentar as apresentações carnavalescas, a pesquisa procurou revelar o cotidiano dos brincantes, suas relações com o sagrado e os desafios enfrentados para manter viva a tradição.
“As pessoas enxergam o maracatu pelo Carnaval, aquela coisa bonita, colorida, mas não sabem o que é que tem dentro do maracatu, o trabalho do ano todo, os resguardos que tem que ter, o trabalho espiritual que tem por trás”, destacou Heudes durante entrevista sobre o seminário.
Para o pesquisador, aproximar a produção acadêmica dos saberes populares também representa uma oportunidade de ampliar o conhecimento sobre uma manifestação cultural profundamente ligada à identidade pernambucana.
“A ideia da gente era divulgar cada vez mais a cultura popular de Pernambuco”, afirmou. Segundo ele, compartilhar os resultados permite que outras pessoas compreendam melhor o funcionamento e as particularidades dos maracatus.
Um século de resistência
Fundado em 1918, o Cambinda Brasileira completou seu centenário em 2018. Ao longo dessa trajetória, atravessou mudanças sociais e culturais, preservando elementos fundamentais de sua identidade.
Em 2019, foi reconhecido como Patrimônio Vivo de Pernambuco, consolidando sua importância para a memória e a cultura popular do estado.
A pesquisa de Heudes Régis e Adriana Guarda acompanhou de perto essa história, registrando o universo dos folgazões, mestres, caboclos de lança e personagens fundamentais para a continuidade do brinquedo.
Entre eles, a matriarca e madrinha espiritual Dona Biu, falecida em 2020, cuja presença marcou profundamente a história do grupo.
O livro nasceu como um desdobramento da revista Não deixem o brinquedo morrer: Memória dos 100 anos do Cambinda Brasileira, publicada em 2019. A experiência dos pesquisadores resultou em mais de 30 horas de entrevistas, aproximadamente 10 mil fotografias e cerca de 500 páginas de depoimentos transcritos.
A obra foi organizada em cinco capítulos, abordando aspectos históricos, religiosos, musicais, simbólicos e socioculturais do maracatu. Grande parte das fotografias foi apresentada em preto e branco, uma escolha estética de Heudes para valorizar os gestos, movimentos e expressões dos brincantes.
O sagrado para além do Carnaval
Um dos pontos centrais da apresentação foi a relação entre o maracatu de baque solto e a espiritualidade, dimensão muitas vezes desconhecida por quem acompanha apenas as apresentações carnavalescas.
Os rituais, os resguardos e as práticas espirituais fazem parte do cotidiano dos integrantes, revelando que a manifestação ultrapassa os limites da festa e permanece presente na vida dos brincantes durante todo o ano.
Essa relação também aparece no título do livro. A expressão “Terreiro Mágico” é utilizada pelos próprios folgazões para se referir ao espaço do Cambinda Brasileira, no Engenho Cumbe, associado a histórias, crenças e experiências transmitidas entre gerações.
Ao levar essa discussão ao ambiente acadêmico, o seminário contribuiu para aproximar diferentes formas de conhecimento e reforçar a importância da documentação e da valorização dos saberes tradicionais.
“É importante, sim, mostrar tudo isso para as pessoas”, resumiu Heudes.
A apresentação evidenciou que preservar a memória do Cambinda Brasileira não significa apenas registrar um século de manifestações culturais, mas também reconhecer as pessoas, os conhecimentos e as relações com o sagrado que sustentaram essa história de resistência.
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