Título Cabeçalho - Dar a Pensar

A ESPERANÇA QUE RESISTE E ATRAVESSA OS IMPÉRIOS

Publicado Por: José Maria da Silva Filho
Por Karoline Menezes*

O que fazer quando o mundo tenta decidir quem devemos ser? Como preservar a própria identidade diante das pressões, das expectativas e dos discursos que disputam nossa atenção? Essas perguntas acompanham muitas pessoas, especialmente a juventude, e atravessam o Livro de Daniel. Escrito há mais de dois mil anos, ele fala de escolhas, pertencimento, poder, medo e coragem.

Durante o mês de setembro, a Igreja Católica no Brasil celebra o Mês da Bíblia, iniciativa surgida em 1971 e relacionada à memória de São Jerônimo, celebrada no dia 30. Estudioso e tradutor das Escrituras, São Jerônimo dedicou grande parte da vida a tornar o texto bíblico acessível às comunidades cristãs de seu tempo, a partir da tradução. A cada ano, um livro orienta esse caminho de leitura, estudo e oração. Para este ano, foi escolhido o Livro de Daniel, acompanhado pelo lema “Seu reino jamais será destruído” (Dn 7,14). Embora promovido no calendário pastoral católico, esse convite pode alcançar cristãos de diferentes tradições. Daniel integra a herança bíblica compartilhada por judeus e cristãos e exerceu profunda influência sobre o Novo Testamento, especialmente sobre os Evangelhos e o Apocalipse de João. Católicos, ortodoxos e protestantes encontram em suas páginas uma mensagem comum de perseverança, esperança e confiança em Deus. As tradições cristãs apresentam algumas diferenças na organização do livro. A Bíblia hebraica e a maioria das edições protestantes reúnem doze capítulos. As Bíblias católicas e ortodoxas acolhem também textos transmitidos em grego, entre eles a oração de Azarias, o cântico dos três jovens, a história de Susana e as narrativas de Bel e do Dragão. Essa diversidade oferece uma oportunidade para o diálogo ecumênico e para o conhecimento das formas diferentes pelas quais as comunidades receberam e conservaram as Escrituras.

A narrativa situa Daniel no século VI antes de Cristo, durante o exílio na Babilônia. Seu nome carrega uma convicção: em hebraico, Daniel significa “Deus é meu juiz”. A narrativa recorda que todo poder encontra limites diante da justiça de Deus. Levado ainda jovem para a corte, ele aprende outra língua, recebe uma nova formação e passa a viver em um ambiente cultural diferente daquele em que cresceu. Também recebe um novo nome, Beltessazar, que significa "Protege a vida de Bel" ou "Beltis proteja o rei", uma homenagem à divindade pagã Bel/Marduque (Dn 1,6-7).

O império procura redefinir sua memória, sua alimentação, sua linguagem e sua maneira de compreender o mundo. Essa experiência pode soar familiar a muitos jovens. A construção da identidade acontece hoje em meio a inúmeras vozes que sugerem como pensar, vestir, consumir, acreditar e projetar a própria imagem. Redes sociais, grupos de pertença, influenciadores, ambientes religiosos, instituições de ensino e expectativas familiares participam dessa formação. Daniel aprende a dialogar com a cultura em que vive e, ao mesmo tempo, reconhece os valores que sustentam sua consciência.

O livro de Daniel alcançou sua forma final muitos séculos depois do exílio, especialmente durante a perseguição promovida por Antíoco IV Epífanes, entre 167 e 164 a.C. O governante restringiu práticas religiosas judaicas, profanou o Templo de Jerusalém e tentou submeter a identidade do povo aos interesses do império. Ao recordar Daniel e seus companheiros na Babilônia, os autores fortaleciam as comunidades de seu próprio tempo. A memória tornava-se fonte de resistência. Desse contexto “brotou” a linguagem apocalíptica. A palavra “apocalipse” vem do grego apokálypsis e significa revelação ou retirada do véu: animais, anjos, sonhos e visões ajudam a enxergar aquilo que permanece escondido sob a aparência dos acontecimentos. Os impérios aparecem como feras porque o exercício violento do poder desfigura a humanidade. Em meio a elas, surge “alguém como um filho de homem”, a quem Deus entrega um reino eterno. O Apocalipse de João retomará muitas dessas imagens para sustentar comunidades cristãs perseguidas pelo Império Romano.

Em 2026, ano eleitoral no Brasil, essa reflexão adquire uma ressonância particular. A palavra política deriva do grego pólis, a cidade ou comunidade dos cidadãos. Em sua origem, política diz respeito ao cuidado com a vida comum. As eleições colocam em debate o uso da autoridade, os projetos de sociedade, a destinação dos bens públicos e a proteção das pessoas vulneráveis. Daniel oferece critérios para avaliar os poderes humanos, os discursos que pedem adesão e as promessas que procuram conquistar a confiança do povo.

As histórias da fornalha ardente e da cova dos leões traduzem esses critérios em cenas marcantes. Os jovens recusam a adoração da estátua erguida pelo rei. Daniel persevera em sua oração diante de um decreto que ameaça sua vida. A fidelidade assume a forma de resistência. Também hoje dinheiro, prestígio, desinformação, culto à personalidade e desejo de domínio podem ocupar o lugar dos antigos ídolos. Entre os textos transmitidos em grego, a história de Susana acrescenta uma questão urgente: vítima de assédio, abuso de autoridade, falsa acusação e julgamento injusto, ela permanece fiel à verdade. Daniel examina os depoimentos e revela a contradição dos acusadores. O relato convida as comunidades e a sociedade de modo geral a escutarem as vítimas, enfrentarem os abusos e criarem espaços seguros de acolhida e proteção. Nas páginas finais, o livro faz ressoar a esperança da ressurreição: “Muitos dos que dormem no pó da terra despertarão” (Dn 12,2). Essa esperança nasce entre pessoas que conheceram a perseguição e a morte dos justos. A fidelidade de Deus abre um horizonte que a violência dos impérios jamais consegue encerrar.

Ler Daniel durante o Mês da Bíblia permite reconhecer a Palavra como companheira dos tempos difíceis, pois seus relatos aproximam gerações, comunidades de fé e tradições que procuram viver a fé em contextos de incerteza. Os impérios passam, as estátuas caem e os poderes encontram seus limites. A história continua aberta à esperança, porque “o Reino de Deus jamais será destruído!” (Dn 7,14).

Teóloga. Doutoranda em Ciências da Religião no PPGCR da Universidade Católica de Pernambuco. Integrante do Instituto Humanitas UNICAP.

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